Umas & Outras

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Arrumando as estantes

Clotilde Tavares | 13 de janeiro de 2011

Mais uma vez estou aqui imersa em pilhas de livros. É que depois de décadas usando velhas estantes de aço, pintadas de preto, resolvi comprar novas estantes de madeira, que vieram de MeuMoveldeMadeira, foram montadas por Batista – o tal faz -tudo que quebra os galhos aqui de casa – e hoje estão ali, bonitinhas e vazias, à minha espera.

Olha, isso quando terminar de arrumar vai ficar muito bonito. E a coisa de que eu gosto mais é de arrumar meus livros. Folheando devagar, revendo volumes que há tempos não via, acariciando suas velhas capas como quem toca o rosto de um amigo antigo, que está sempre ali, fiel e dedicado. Vai seu um fim-de-semana muito bom!

Estantes novas, prontas para a arrumação. Livros empilhados pela sala inteira. Devem ser uns... 1.700 a 2.000.

Olha a sala como está: livros por toda parte!

E comecei a arrumação por ele, o imortal e genial William Shakespeare, que ocupa duas prateleiras.

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arrumar estantes, estantes, livros
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Uma lenda oriental

Clotilde Tavares | 9 de janeiro de 2011

“Um homem entra num bar em Damasco e pede uma taça de vinho. Levanta os olhos e vê a Morte a encará-lo do outro lado da sala. Apavorado, pega o cavalo e galopa, fugindo, internando-se deserto a dentro. Ao chegar a Samarra, encontra novamente a Morte.

- Mas não estavas há pouco em Damasco? – pergunta.

- Sim – diz a Morte. – E fiquei muito supresa de ver-te lá pois meu encontro contigo sempre esteve marcado aqui, em Samarra.”

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Oito livros

Clotilde Tavares | 7 de janeiro de 2011

As pessoas não tomam jeito na sua curiosidade e no seu voyeurismo.

Não acho isso nada demais. Eu mesma sou uma curiosa sem concorrentes, e se não sou voyeur é porque talvez não ache a vida alheia suficientemente interessante a ponto de deixar de viver a minha vida para espionar a dos outros.

Pois então: como falei que havia trazido uns livros para este meu isolamento, já teve gente que queria saber que livros eram!

Como não é segredo, vou informar aos curiosos as minhas escolhas.

O primeiro deles foi o texto de William Shakespeare “Tróilo e Créssida”, uma peça pouco conhecida e que eu nem sequer me lembrava da história. Tinha começado a ler em Natal, e hoje de manhã li o 4º. e o 5º. ato, concluindo a obra. Trouxe também o DVD, que vou ver mais tarde.

Trouxe três livros que me ajudam na construção da narrativa que estou esboçando. São livros que sempre estou lendo e relendo, e que toda vez que os abro saio cheia de insights poderosos: A Cultura Popular na Idade Média e no Renascimento, de Mikhail Bakhtin; As Raízes Históricas do Conto Popular, de Wladimir Propp; e Fábulas Italianas, de Ítalo Calvino.

Outros três livros, esses novos, que comprei ou ganhei, e que estou doida para ler: Leite Derramado, de Chico Buarque, presente de amigo secreto da maravilhosa Atalija Lima; Uma Viagem pela Idade Média, organizado por Adriana Zierer, da Universidade Estadual do Maranhão, que comprei diretamente à autora pela Internet; e Minha Vida Meu Tudo, memórias de Francisco Nunes da Costa, que o autor me deu de presente antes de ontem e que eu já li bem umas 50 páginas.

Tem ainda um ensaio “Contra o Amor”, de Laura Kipnis, que já comecei trocentas vezes, que acho ótimo, mas que sempre acontece algo para interromper essa leitura. Esse livro é muito, mas muito bom mesmo.

Pronto, meu curioso leitor. Eis aí o que estou lendo. Pensei que eram dez, mas são só oito.

Satisfeito?

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Adriana Zierer, Atalija Lima, Bakhtin, Chico Buarque, Ítalo Calvino, Laura Kipnis, leitura, Literatura, livros, Nunes da Costa, Propp, Troilo e Cressida, William Shakespeare
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Inventando histórias

Clotilde Tavares | 6 de janeiro de 2011

Só para informar ao meu caro leitor: estou uma semana afastada da minha base em Natal, para inventar uma história.

“Minha base” é o meu apartamento em Natal, onde há múltiplos elementos captadores da minha atenção: montes de livros e revistas, TV fechada com muitos canais, conexão Internet de alta velocidade e as solicitações daquilo que chamo de “mundo exterior”: família, amigos e outros compromissos.

Aqui, onde estou, num chalé na Praia da Pipa, tenho apenas dez livros que trouxe de Natal; e para me conectar à Internet com velocidade tenho que sair do chalé e ir até a área comum da pousada, onde tem wireless. No chalé, meu modem 3G da Claro só tem meio G e eu não consigo me conectar com velocidade suficiente pra ficar de conversê no twitter, no MSN e no Facebook.

Então, fica mais fácil de cumprir o meu propósito aqui que é “escrever um livro”, denominação vaga para uma tarefa que inclui inventar e encadear histórias para acomodar os personagens que criei e que se movimentam a esmo na região do Cariri Paraibano – lugar onde vai se passar a narrativa.

Construo minhas histórias como uma aventura de RPG: invento um Universo, onde vai se passar a ação; depois invento os personagens. Aí, fica faltando a história, o enredo, os acontecimentos, que terminam sendo criados pelas relações que esses seres imaginários estabelecem uns com os outros, muitas vezes surpreendendo até mesmo a mim porque, quando a gente começa a escrever, a história começa a correr um pouquinho à nossa frente, e nos leva a lugares ou situações não previstos antes.

-o-o-o-o-o-o-o-o-o-

O lugar onde estou é um conjunto de chalés em meio a uma vegetação característica da Mata Atlântica embora sem grandes árvores. São chalés adoráveis, cercados por árvores pequenas e arbustos, com tudo que uma pessoa pode querer para ficar confortável e se sentir bem e segura.

Muita gente quer saber “com quem eu vim”: pois não vim com ninguém. Vim sozinha. Já deixei de fazer muita coisa na minha vida porque não tinha companhia. Agora, faço sozinha mesmo. Gosto de ficar só, de fazer meus próprios horários e, finalmente, com a Internet e todas as suas ferramentas de comunicação, só fica sozinho quem quer, não é, minha gente? Agora mesmo não estamos eu e você juntos, através deste texto? Pois é.

Finalmente, se rolar solidão, é só caminhar 15 minutos a pé para chegar até a rua principal da Pipa, e lá eu garanto que acontece de um tudo…

E veja só a cama em que estou dormindo. Ahhhhhhh…

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chalés em Pipa, escrever, escritor, Pipa, Praia da Pipa
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O Corvo e a Alegria

Clotilde Tavares | 17 de setembro de 2010

A ilustração é de Gustave Doré.

Uma vez, quando esse Umas & Outras ainda era uma newsletter que eu mandava pra uma lista de amigos, comecei escrevendo assim:

(…)

Foi uma vez: eu refletia, à meia-noite erma e sombria,
a ler doutrinas de outro tempo em curiosíssimos manuais,
e, exausto, quase adormecido, ouvi de súbito de um ruído,
tal qual se houvesse alguém batido à minha porta, devagar,
“É alguém” — fiquei a murmurar — “que bate à porta, devagar;
sim, é só isso e nada mais.”

(O Corvo, de Edgard Allan Pöe)

E, depois de citar o poeta de “O Poço e o Pêndulo”, continuei:

“É nesse clima de expectativa, noite e dia agarrada a vetustos livros de genealogia, com os antepassados me rondando, tomada pela energia esquisita de Pöe e sua ave sombria, que me encontro.

Sem concentração, sem sossego, esperando o que está do outro lado da porta mas sem estar pronta ainda para abri-la.

Deve ser o inverno, a chuva, o frio, esse tempo que me deixa assim.”

(…)

Aí foi um dilúvio de emails, as pessoas muito preocupadas comigo, perguntando carinhosamente como eu estava, julgando-me deprimida ou mergulhada numa crise existencial.

Mas não era nada disso, meu caro leitor. O que acontece é que eu tenho o gosto do drama, da tragédia. Adoro um clima soturno e sombrio, uma história de assombração, um romance gótico. Nada disso é de verdade, sendo apenas uma curtição estética e incorporada aos pequenos papéis que represento aqui no palco da Internet, mais para me divertir e para divertir os leitores do que para qualquer outra coisa. Por isso fiquei constrangida, e fico sempre quando vez por outra pessoas boas e amorosas embarcam na minha viagem alucinada e pensam que é de verdade.

Fique o meu caro leitor sabendo que sou alegre, otimista e cheia de tesão pela vida; tenho meus momentos de contrariedade, desilusão e tristeza, porque isso é inerente à condição humana mas a tônica da minha vida são a Alegria, o Bom-Humor e o Entusiasmo.

Edgar Allan Pöe e o Corvo me dão muito prazer estético, mas – felizmente – são só para tirar uma onda.

E viva a Vida!


Veja aqui como era o Umas & Outras antes de virar blog.


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Edgar Allan Poe, gótico, O Corvo
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In omnia paratus

Clotilde Tavares | 16 de setembro de 2010

Alguns posts atrás, quando falei da frase de Thoreau que no momento encerra minha assinatura de e-mail, prometi estender o assunto das frases, falando de outras frases das quais gosto muito. Uma delas é a frase de Yeats, “Aos bons falta convicção, enquanto que os maus estão cheios de fé e entusiasmo”. Retirada do poema The Second Coming, essa frase resume aquilo que eu vejo em 90 por cento das pessoas que me cercam – os bons, sem convicção, cheios de tédio, desiludidos com a vida, sem tesão para a luta; e os maus cheios de força e entusiasmo. Eu procuro formar do lado dos bons nesta equação, embora conservando dos maus aquilo que presta – que é o tesão e o entusiasmo. E vambora ver no que dá.

Outra frase ótima é o provérbio oriental (well, a gente chama de provérbio oriental quando não sabe de quem é…): “Antes de sair para consertar o mundo dê três voltas dentro de sua própria casa”. Essa frase me pegou de jeito num momento da minha vida em que eu, cheia de ideais missionários e transformadoras, queria interferir de todas as maneiras na realidade, com especial ênfase na realidade dos outros. A frase me fez voltar o olhar crítico na minha própria direção, me fez enxergar a trave diante dos meus olhos antes de me incomodar com o cisco no olho do outro, como diria Dona Cleuza, minha mãe, expressando sua sabedoria caririzeira. Então dediquei-me de tal forma a dar as três voltas dentro da minha própria casa que ainda não terminei a tarefa. Acho que o mundo tem conserto, mas deve começar pelo nosso próprio quintal. Eu até escrevi um livro sobre isso, “A Magia do Cotidiano: como melhorar sua qualidade de vida”, que está praticamente esgotado, mas eu tenho intenção de colocá-lo disponível para download assim que tiver tempo de transformar o livro, que está em Pagemaker 6.5 no formato .pdf, mais apropriado para a web – como já fiz com o Coração Parahybano e Formosa És.

Uma boa frase, lida no blog da jornalista Rossana Herman é : “Interesse-se pelos interessantes e ignore os ignorantes”. Parece óbvio, mas é tão freqüente a gente fazer exatamente o contrário! Quantas vezes não damos cabimento a gente sem graça, estúpida, que nada tem para acrescentar, nem ao Universo e nem a nós mesmos? Enquanto isso as pessoas interessantes passam ao largo… E essa pérola, que colhi no douto texto de Santo Agostinho: “Senhor, dai-me continência e castidade, mas não agora!” Preciso comentar?

Finalmente, deixo você com um brocardo latino que há algum tempo vem logo abaixo do meu nome, na assinatura dos e-mails: In omnia paratus, que quer dizer simplesmente: Pronta para tudo, e é a atitude atual minha diante da vida. Ou seja, eu sempre estive pronta, mas nunca estive tão pronta como estou agora.

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brocardos, frases, in omnia paratus, proverbios, Santo Agostinho, Yeats
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O aplauso e a vaia

Clotilde Tavares | 15 de setembro de 2010

Há uns três dias recebi um email muito simpático, de uma pessoa que me pede para ler alguns textos escritos por ela, e me pede também uma opinião. Eu fiquei aqui quebrando minha cabeça para ver de que forma eu ia responder isso e aí achei melhor escrever um post sobre essa situação, que é bem freqüente na minha vida: pessoas que me pedem opiniões sobre seus textos.

Para começar, minha rotina de trabalho é muito pesada. Sou professora universitária aposentada, o que faz muita gente pensar que eu não faço nada. Eu mesma alimento essa fábula quando me auto-descrevo no twitter como “fiscal da natureza…” e por sempre estar assim de forma leve e solta nas coisas que escrevo. Mas isso, essa leveza, essa soltura, tem a ver com meu temperamento e não com o volume de coisas que requerem minha atenção e com as quais me ocupo da hora que acordo à hora em que vou dormir – e algumas delas continuam a me ocupar mesmo durante o sono, povoando meus sonhos de interrogações.

Sou uma escritora em tempo integral. Isso quer dizer que eu escrevo de verdade, todo dia. Sempre estou escrevendo algo, como agora, e ao final deste post terei escrito aí umas 700 palavras. A maior parte das coisas que escrevo não se aproveita, e é assim mesmo em qualquer ofício ligado à Arte. Mas é preciso escrever, escrever sempre, para manter a habilidade em forma.

Fora escrever, é preciso ler, ler muito, ler os blogs e comentar, responder aos emails, administrar as listas de discussão na internet (umas 3 ou 4), atender aos telefonemas, preparar propostas de cursos e palestras e enviar a quem me pede, trabalhar nas pesquisas que dão suporte aos temas sobre os quais escrevo, ver filmes, ver programas de TV, assistir entrevistas, ouvir música. É preciso também fazer a comida, lavar a louça, limpar o apartamento, sair de casa para as inúmeras coisas da vida prática, conversar com os amigos e sair com eles, recebê-los em casa às vezes, dar atenção aos filhos e aos netos.

Então, dentro dessa rotina, não sobra muito tempo para ler e opinar sobre trabalhos que as pessoas me enviam, mesmo porque esse é um trabalho demorado porque dificílimo, delicado, cheio de implicações, onde a leitura tem que ser atenta e a opinião ou crítica expressa tem que ser ponderada, muito bem pensada e – mais difícil ainda – expressa com delicadeza de forma que não fira de nenhuma maneira o postulante que, ansioso, espera a opinião desta escritora que vos tecla.

Por isso optei e opto por não ler e opinar sobre escritos dos outros. E tenho aqui uma recomendação a quem tem seus textos na gaveta e fica querendo uma avaliação: busque essa avaliação sim, mas não de um escritor. Busque do seu público, porque é para ele que você escreve e é ele quem consagra – ou desconsagra – um autor.

Escreve contos ou poesias? Imprima e distribua, ou pregue no quadro de avisos de onde você trabalha, ou ainda mande para a sua lista por email. E não peça opinião. Se as pessoas gostarem, elas lhe escrevem ou lhe procuram pedindo mais.

Se você escreve para teatro, faça cópias e entregue aos professores de teatro das escolas, para que eles, se gostarem, montem com seus alunos.

O escritor que lê os textos de um principiante pode gostar, ou então não gostar. Isso é apenas a opinião dele, do escritor, e não deve significar nem a glória nem a desgraça para quem está começando. O maior sucesso editorial brasileiro é o escritor Paulo Coelho, para quem os escritores como eu torcem o nariz.

Então, aposte no seu trabalho, entregue-o ao público. Só o público pode dar ao artista o tão necessário aplauso ou a vaia, esta mais necessária ainda, porque nos faz repensar, retrabalhar e melhorar aquilo que fazemos.

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Cortando lenha

Clotilde Tavares | 12 de setembro de 2010

Aqueles que recebem meus emails já devem ter notado que uso uma assinatura fixa onde, além dos meu nome e telefones, eu refiro a cidade onde estou morando – Natal/RN – e links para o twitter, para este blog e para o meu site de Genealogia.

Também vez por outra acrescento mais uma informação, ou uma frase, como a de Thoreau que atualmente fecha a minha assinatura: “Corta tua própria lenha e ela te aquecerá duas vezes.”

É uma das minhas frases favoritas – tenho outras – mas essa traz embutida a ideia da pessoa encontrar realização nas tarefas secundárias do próprio trabalho, tirando dali prazeres extra, que muitas vezes não se percebe à primeira vista. A lenha tem o objetivo de aquecer a pessoa, enquanto queimada na lareira; mas se a pessoa cortá-la ela mesma, também terá um benefício adicional, pois a atividade a aquecerá também.

É por isso que continuo arrumando minhas estantes e eu mesma espanando meus livros; faço todo o trabalho manual suscitado pela minha atividade de escritora, como digitar textos, colar meus próprios recortes de jornal num caderno, arrumar as gavetas, limpar e organizar a mesa e mais o que for preciso. Enquanto estou ali, mexendo naqueles objetos que uso para desempenhar minha atividade, estou me “aquecendo” pela primeira vez. O manuseio dos lápis e canetas, dos papéis e cadernos, das imagens, recortes, postais e fotografias que são pregados no quadro de avisos que mantenho, tudo isso leva o cérebro a entrar na frequência do trabalho.

Quem convive comigo acha engraçado porque não me vê escrever. É assim mesmo. Escrevo dentro da cabeça, “enquanto corto minha lenha”. Quando sento no computador, já está tudo pronto, bem organizado, com começo-meio-fim, e escrevo quase de uma “sentada”. Depois, é só imprimir e corrigir, corrigir, corrigir até ficar limpo.

Simples assim.

Outra coisa que há na minha assinatura de e-mail é a frase latina “In omnia paratus”. Mas isso fica para o próximo post.

No blog SalaDa Médica, Meire Gomes conta uma história engraçada que se passou comigo. Aproveite para dar uma passadinha lá e ver os outros posts da Dra. Meire, inteligentíssima e antenada, dando opinião sobre tudo o que é de assunto.

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A delícia das coisas simples

Clotilde Tavares | 9 de setembro de 2010

Convido hoje o meu caro leitor para um reflexão a respeito da extrema delícia das coisas simples. Isso não quer dizer que eu não goste do requinte, da sofisticação. Mas além disso está a simplicidade, que termina sendo o extremo requinte. A simplicidade é o requinte do requinte.

Por exemplo, uma rede. Quer coisa mais simples, e que consegue dar mais prazer do que uma rede? Uma simples pedaço de pano grosso, suspenso no ar a partir dos seus extremos, móvel, balouçante e macia, herança preciosa dos nossos antepassados indígenas? Uma rede é a glória, a glória suprema. Mas é preciso saber se deitar, e não é todo mundo que sabe se deitar numa rede. É preciso descobrir o ângulo absolutamente certo entre a posição do seu corpo e a beirada da rede.

Falando em simplicidade, e em rede, lembro logo do sertão e de uma pousada em que fiquei hospedada em Paraú, ou Espírito Santo do Oeste, no Rio Grande do Norte. Quando cheguei na pousada, a mulher olhou assim para mim e disse “- Você dorme de rede?” Eu, cansada que vinha, caí nos braços dela: “- Durmo, querida…” Mergulhei então no berço daquela rede, dentro da qual fiquei me espojando feito um potro novo, preguiçando e espantando o cansaço… A rede era vermelha e a varanda era um poema de crochê, pesada, tecida numa linha grossa. Joguei-a por cima de mim e ela veio, se adaptando ao meu corpo, me fazendo uma carícia, aquela varanda pesada… Ô delícia…

O quarto tinha apenas a rede e uma cadeira onde coloquei a mala, mas era limpíssimo, paredes alvas e o chão brilhante de tão esfregado. O meu caro leitor talvez achasse essa hospedagem pobre, mas eu lhe digo que somente a rede era melhor do que aqueles apartamentos de hotel metido a besta de interior, com frigobar e outras bobagens. Para que é que eu vou querer um frigobar, quando posso dizer: “- Ei, a senhora tem um docinho?” ou “- Comadre, me arranje um cafezinho…” Telefone também não é necessário porque posso me levantar e chamar quem eu quero. Está todo mundo ali, pertinho, ao alcance da voz.

Depois, o jantar. Um jantar sertanejo. Arroz de leite, alvo, os pedacinhos de queijo amarelinhos apontando aqui e ali no meio do arroz. Carne assada, um feijãozinho macassar bem sequinho, sem muito caldo, e uma batata doce merecedora de um poema, uma canção, enxutinha, uma delícia. Depois, um suco de maracujá delicioso, feito com maracujá que não é comprado em supermercado porque é completamente diferente daquele que eu tomo em casa.

Pedi doce, não tinha, mandaram comprar. Daí a pouco entrou Salete – que é o nome da dona da pousada e criadora dessas delícias – com o pedaço de doce espetado na ponta de uma faca. Fiquei me sentindo medieval, comendo com a faca, metendo a faca na boca e com olhos molhadinhos de lágrimas, lembrando de que Mamãe, lá de Coxixola, na Paraíba, me servia doce desse mesmo jeitinho. Depois Salete me trouxe café e água e eu disse: meu Deus, eu não saio mais daqui.

Mas tive que sair, caro leitor. Tive que seguir viagem, mas acrescentei às minhas experiências essa, especial entre todas: o sertão e a sua simplicidade, das pessoas e das coisas.

Essa é mais uma das crônicas já publicadas no meu livro “A Agulha do Desejo” (Natal, Engenho de Arte, 2003), que você encontra na Estante Virtual e em breve disponível para download gratuito aqui mesmo neste site. A foto é minha, de 1999, e mostra as cercanias da cidade de Paraú-RN.

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Ri-ri, miss e Jesus

Clotilde Tavares | 15 de agosto de 2010

Talvez o meu caro leitor não saiba, mas sou uma moça prendada, educada em colégio de freiras e dominando habilidades que hoje não mais fazem parte da educação das jovens. Assim é que sei costurar, bordar, fazer tricô, crochê e ponto de cruz. Imbuída da importância de tais tarefas, e horrorizada com o preço cobrado pelas costureiras, vez por outra resolvo eu mesma costurar, tarefa na qual me saio muito bem, apesar de certa dificuldade em enfiar a linha na agulha.

Entre os aviamentos usados na arte da costura, um dos mais comuns é o fecho éclair, que sempre me faz lembrar de uma conhecida minha, que chamava essa peça de “flash”, segundo ela porque abria e fechava com rapidez. Ora, essa explicação tem tudo a ver, já que “éclair”, em francês, significa relâmpago. Minha mãe o chamava de “ri-ri”, pelo barulhinho que o fecho fazia ao deslizar. E se você achou engraçado, caro leitor, lembre-se de que em inglês o termo para esse tipo de fecho é “zipper”, que vem exatamente da palavra “zip”, que quer dizer silvo, sibilo. Tanto a palavra sertaneja como a inglesa servem ao mesmo propósito: designar o objeto aludindo ao som que ele provoca.

É curioso observar os nomes que as coisas adquirem, de acordo com o estado, ou a região. Eu chamo aquele arco de colocar na cabeça prendendo os cabelos de “diadema”. Muita gente chama de “arco”, ou “tiara” e já vi chamarem também de “traca”.

Um simples friso de cabelo pode levar a confusões indescritíveis. Você pode andar uma cidade inteira à procura de um friso, e não vai encontrar, pois nesse local o conhecem por “grampo”. E eu andei uma tarde todinha pelas lojas da Avenida Sete, no Campo Grande, na Bahia, querendo comprar uma caixa de frisos, para somente depois, ao chegar no Hotel, descobrir que o nome daquilo, na Bahia, era “miss”. Já minha mãe, no seu linguajar sertanejo, chamava friso de “biliro”.

Tem também umas coisas que são deliciosas. No Maranhão, por exemplo, existe – ou existia – um refrigerante como um guaraná que é cor de rosa e cujo nome é “Jesus”. Uma das coisas que eu mais gostava quando ia a São Luís era entrar numa lanchonete e dizer “- Moço, me dá um Jesus!” E lá vinha o homem com aquela garrafa da cor de uma pétala de rosa.

Palavras, palavras, palavras: tão ricas, tão belas, tão saborosas. Inglesas, francesas ou sertanejas, não importa: na boca do povo ganham vida, ganham alma e graças a elas esta que hoje vos escreve tem assunto para este domingo preguiçoso.

Essa garrafinha de Jesus foi meu compadre Carlos von Sohsten quem trouxe pra mim do Maranhão no ano passado. Fui na casa dele degustar a iguaria e fiz a foto com meu afilhado Vinicius. Eu adoro Jesus!

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