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	<title>Umas &#38; Outras</title>
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	<description>Arte, Cultura, Informação &#38; Humor</description>
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		<title>R &amp; J de Shakespeare &#8211; Juventude Interrompida</title>
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		<pubDate>Mon, 07 May 2012 13:17:27 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clotilde Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Sempre fico com um pé atrás quando saio de casa para ver qualquer espetáculo baseado em William Shakespeare. Isso porque a maioria dos encenadores nunca se contenta em apresentar o texto original, e somos obrigados a presenciar tentativas de tornar o texto mais “acessível”, mutilando a poesia, nivelando por baixo a linguagem, substituindo as belas [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div class="mceTemp">
<dl id="attachment_4127" class="wp-caption alignnone" style="width: 410px;">
<dt class="wp-caption-dt"><a href="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2012/05/RJ-de-Shakespeare-Juventude-Interrompida-1.jpg"><img class="size-full wp-image-4127" title="R&amp;J de Shakespeare - Juventude Interrompida 1" src="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2012/05/RJ-de-Shakespeare-Juventude-Interrompida-1.jpg" alt="" width="400" height="109" /></a></dt>
<dd class="wp-caption-dd"></dd>
</dl>
</div>
<p>Sempre fico com um pé atrás quando saio de casa para ver qualquer espetáculo baseado em William Shakespeare. Isso porque a maioria dos encenadores nunca se contenta em apresentar o texto original, e somos obrigados a presenciar tentativas de tornar o texto mais “acessível”, mutilando a poesia, nivelando por baixo a linguagem, substituindo as belas e raras palavras pelo seu sinônimo mais corriqueiro, ou então “brincando” – no mau sentido &#8211; com o texto, recheando-o de palavras e situações obscenas, na velha postura adolescente de debochar daquilo que não se compreende. Também há outras formas de picotar, cortar, detonar e estraçalhar o texto a serviço de propostas de encenação esteticamente bizarras, e muitas experiências desse tipo recebem a aprovação de uma vertente modernosa da crítica, sendo esse aval tanto mais efetivo quanto mais esquisita for a montagem. A fragmentação do texto, sob a justificativa de se extrair dele “novos” e “ocultos” significados, principalmente se o texto for shakespeareano, tem sido um esporte praticado com energia e aplicação. Todas essas reflexões me fazem ir a uma montagem de W.Shakespeare com sentimentos que oscilam entre o terror e o tédio.</p>
<p>Para mim, nada substitui a força e a poesia do texto shakespeareano. Tenho provado ao longo dos meus anos com professora que qualquer adolescente de 16 anos pode não só compreender esse texto como retirar dele muito prazer estético. É uma sensação maravilhosa quando vejo um aluno descobrir que “o túmido astro que ergue o império de Netuno” é a Lua, e com essa compreensão, que passa primeiro pelo aprendizado de uma palavra nova, não-comum, “túmido”, depois por entender a influência da Lua sobre as marés, coisa que muitos não sabem, e finalmente quem é Netuno, e o que é a mitologia grega. Além de tudo isso, a viagem pela “linguagem ornamentada” usada por W.S. suscitou uma vez um diálogo interessante entre dois alunos a respeito da frase acima. Um deles perguntou: &#8211; “E por que ele não diz ‘a Lua’ logo de uma vez?” O outro, que estava ao lado, logo retrucou: &#8211; “Ô idiota, é a mesma coisa que o pavão deixar de ser colorido para ser em preto e branco!”</p>
<p>Pois é.</p>
<p>Então, quando fui ver “R &amp; J de Shakespeare – Juventude Interrompida”, um texto do norte-americano Joe Calarco com direção de João Fonseca, na noite de 5 de maio de 2012 no Barracão Clowns, aqui em Natal, onde moro, fui preparada para tudo e nem li o programa entregue antes do espetáculo. Eu sabia apenas que eram quatro rapazes, que a montagem tinha vários prêmios e indicações, e só.</p>
<p>Mas foi tudo lindo, meu caro leitor. O que vi naquela noite foi uma prova de que é possível respeitar o texto e a dramaturgia shakespeariana e ao mesmo tempo envolver a platéia, formada quase que somente de jovens entre os 16 e 30. Havia ali umas cem pessoas, e somente eu da minha idade – mais de 60. Uma ou outra pessoa que aparentava ter mais de 35 anos e o resto eram jovens mesmo, universitários, gente de teatro, garotada.</p>
<p>O espetáculo funciona, e penso que funciona por vários fatores, reunidos pela competente direção. Tanto eu fiquei encantada quanto a jovem que, sentada à minha frente, recostava a cabeça do ombro do namorado. Provavelmente nos encantamos por motivos diferentes mas é esse o segredo de uma boa encenação, que tem a capacidade de levantar o véu que separa a nossa realidade comum e cotidiana daquele mundo inconsciente, estranho, caótico e desconhecido que temos dentro de nós. Todos viajam, cada um à sua maneira.</p>
<p>“R &amp; J” se inicia propondo um nível duplo de representação ou de metamorfose: atores que fazem o papel de estudantes de um colégio católico que por sua vez fazem o papel dos personagens shakespearianos. Aqui e acolá, ao longo do espetáculo, eles voltam aos “alunos” com intervenções rápidas, bem humoradas mas rapidamente retornam a Romeu, Julieta, a Ama, Frei Lourenço. Esse texto sempre me arrebata quando é dito da forma como o foi, com verdade e fiel ao que foi escrito há mais de 400 anos. Os momentos onde os estudantes voltam a si mesmos também são dotados de um encanto, um frescor, uma juventude, uma beleza, qualidades que a peça pede, exige, e que não se encontra em todo tipo de ator. Mas são lindos, esses rapazes! São jovens, são suaves, são fortes, são saudáveis, são inteiros, “intocados pela tragédia”, como o eram Romeu e Julieta ao se conhecerem e experimentarem o amor.</p>
<p>Mas somente a beleza, a força, a juventude, não são suficientes para garantir um bom momento teatral. Esses rapazes são, principalmente, bons atores, bem preparados, com prontidão, vigor físico e fé cênica. Uma das coisas boas do espetáculo é a precisão, o cuidado com os detalhes, a movimentação perfeita, o bom-acabamento. Isso mostra ensaio, ralação, trampo, seriedade, compromisso, dedicação. Pablo Sanabio (como Frei Lourenço, Ama e outros) e Geraldo Rodrigues (como Julieta) estavam irrepreensíveis. O primeiro, nos papéis da Ama e de Frei Lourenço foi a melhor presença em cena, mas não de uma forma que desequilibrasse o conjunto – o que é bom. O segundo consegue o milagre de nos revelar Julieta sem apelar para a caricatura ou o travestismo. No entanto, tive dificuldade para entender o que dizia Felipe Lima (Pai de Julieta e outros) e quanto a João Gabriel Vasconcellos (Romeu) – como é bonito, esse rapaz! – foi um Romeu perfeito, embora nos minutos finais da peça – só nos minutos finais! – tenha ficado um pouco sem voz e cansado. Talvez não estivesse em uma noite boa. Acontece.</p>
<p>Muito competente a cenografia, usando elementos do ambiente escolar – carteiras, giz quadro-negro, papel A4, clipes (os brincos da ama, achado genial!) – aliada ao figurino: ternos e sapatos macios, o paletó usado de várias formas – saia, manto, pelo avesso – funcionou muito bem. E ficou tudo redondo, junto com a luz, a música e os efeitos sonoros. No Barracão Clowns estávamos em um arranjo rigorosamente elisabetano, com platéia dos três lados e uma profundidade maior do palco no quarto lado. Não sei se é essa a proposta real de distribuição do espaço cênico que eles usam em outros locais mas fiquei curiosa de ver como seria essa peça em um teatro de arquitetura convencional, com platéia frontal.</p>
<p>E como é bom desfrutar do encanto do texto de W.S. da forma como foi escrito, com todas aquelas metáforas espetaculares, as imagens poéticas, as palavras tão eternas e tão permanentes e ao mesmo tempo parecendo terem sido inventadas na hora pela verdade como são ditas! Na cena do balcão, como é sutil e delicada a forma de emissão do texto de João Gabriel Vasconcellos (Romeu) mas que nada seria sem a expressão amorosa do rosto e o olhar apaixonado que o personagem dedica à sua dama, no balcão, banhada pelo luar!</p>
<p>O que dizer mais? Somente que me agrada muito ver que ainda há espaço para a poesia em seu estado mais luminoso, despida de experimentalismos cênicos que a descaracterizam. Que a poesia ainda continua sendo capaz de arrebatar a mente e o coração de uma geração bombardeada a todo instante pelas vulgaridades de um milhão de views que lotam o Youtube. Que acreditar no amor ainda vale a pena. Que William Shakespeare continua imortal e tão moderno quanto eterno. Que o teatro continua vivo. E que, enquanto houver vida no teatro, a vida pode ser possível.</p>
<p><em>Veja outros posts deste blog que falam sobre William Shakespeare clicando na tag correspondente na coluna da direita.<a href="http://umaseoutras.com.br/wp-admin/edit-tags.php?action=edit&amp;taxonomy=post_tag&amp;tag_ID=683"><strong><br />
</strong></a></em></p>
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		<title>Deífilo Gurgel (1926-2012)</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Feb 2012 15:59:48 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clotilde Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Aqui neste blog fica minha homenagem ao professor Deífilo Gurgel, que nos deixou hoje. Em 2003, eu publicava na Tribuna do Norte o texto abaixo. Deífilo foi importante na minha vida de muitas maneiras, mais do que posso relatar aqui, pois a emoção e a dor não me deixam escrever direito. Minha eterna saudade. UPDATE [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Aqui neste blog fica minha homenagem ao professor Deífilo Gurgel, <span style="text-decoration: line-through;">que nos deixou hoje. </span>Em 2003, eu publicava na Tribuna do Norte o texto abaixo. Deífilo foi importante na minha vida de muitas maneiras, mais do que posso relatar aqui, pois a emoção e a dor não me deixam escrever direito.</p>
<p>Minha eterna saudade.</p>
<p><strong>UPDATE 02/02/2012 às 9:37 </strong>- Ao acordar e ver os jornais, soube que o prof. Deífilo encontra-se na UTI, em estado gravíssimo, respirando por aparelhos, e que a notícia de sua morte &#8211; transmitida a mim por um telefonema do seu filho Carlos Gurgel, que me ligou chorando copiosamente &#8211; foi devida a um desencontro de informações. Resta a nós orar por ele e a mim pedir desculpas ao leitores e à família pelo erro involuntário que cometi.</p>
<p><strong>UPDATE 06/02/2012 às 19:30 &#8211; </strong>Vi há pouco no noticiário que o prof. Deífilo Gurgel faleceu hoje por volta do meio-dia. Depois de tudo que já foi dito aqui, quase nada me resta, a não ser desejar paz e conformação à família e reafirmar minha saudade e a gratidão por tudo que aprendi com ele.</p>
<p><strong><br />
</strong></p>
<hr /><a href="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2012/02/deifilo_gurgel.jpg"><img class="alignnone size-medium wp-image-4111" title="deifilo_gurgel" src="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2012/02/deifilo_gurgel-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a><br />
<strong>Por que Deífilo Gurgel?</strong></p>
<p>No mais recente número da Revista Preá, ao ser entrevistada para a coluna 13 x 1, pediram-me que citasse uma &#8220;personalidade cultural do Rio Grande do Norte&#8221;. Não precisei pensar muito, e citei o nome de Deífilo Gurgel.</p>
<p>Mas quem é Deífilo? Se o meu caro leitor não sabe, informo-lhe que o pesquisador e folclorista Deífilo Gurgel é filho de Areia Branca, mas adotou Natal como moradia há mais de cinqüenta anos. Estudioso e entusiasta do folclore potiguar, vem trilhando os caminhos abertos por Câmara Cascudo, tendo sido professor da Disciplina de Folclore Brasileiro da UFRN até aposentar-se, no início dos anos 90. Além de folclorista é poeta e ensaísta, tendo publicado inúmeros livros, entre os quais se destaca &#8220;Espaço e Tempo do Folclore Potiguar&#8221;, uma obra fundamental para conhecer a cultura do nosso povo e que ainda espera uma edição mais bem cuidada, à altura da importância do conteúdo.</p>
<p>Deífilo Gurgel é irmão do escritor Tarcísio Gurgel, pai do poeta Carlos Gurgel e do artista plástico Fernando Gurgel, além de outros sete filhos, belos e talentosos. Junto com Zoraide, sua esposa, protagoniza uma história de amor que já dura décadas e que parece ter fôlego para estender-se até a Eternidade.</p>
<p>Mas, o que torna este homem uma personalidade cultural maior neste estado? O que faz brilhar sua luz acima de todas as outras? Para mim, o que distingue Deífilo Gurgel entre os inúmeros homens cultos deste estado, todos eles produtores de obras importantes para a nossa vida cultural, é a sua postura de intelectual sinceramente comprometido com o exercício e a prática da busca do conhecimento. É a abnegação quase franciscana com que se dedica aos estudos da cultura popular, empregando na maioria das vezes seus próprios recursos, pagando para produzir conhecimento, tirando do orçamento doméstico para financiar viagens, para comprar fitas para o gravador e muitas vezes ajudando financeiramente os artistas que o descaso da sociedade deixa muitas vezes morrer à míngua. É a simplicidade que ele professa como traço principal de caráter numa terra de culturas ocas, de falsas competências, de reputações construídas sobre o vazio. É a boa vontade que manifesta em auxiliar aqueles que o procuram com dúvidas sobre os temas que estuda, nunca sonegando informações, nunca exercendo qualquer monopólio sobre o conhecimento. É Deífilo Gurgel, o homem afável, bondoso, simpático, alegre. É a inocência marota com que nos conta a história do &#8220;cabelinho crespo&#8221;, mais uma colhida dentro da sua pesquisa sobre os contos do &#8220;demônio logrado&#8221;.</p>
<p>Por isso o admiro, e quero hoje com você, meu caro leitor, dividir e proclamar essa admiração. Ao ler minha entrevista na Revista Preá, ele me mandou uma carta, onde se diz envaidecido pela indicação e conclui com uma frase que deixo aqui, concluindo este elogio público, para que você possa alcançar o grau de simplicidade que ele mostra em tudo o que faz, e que o torna único entre todos.</p>
<p>Diz Deífilo Gurgel: &#8220;Clotilde, aceito sua homenagem, mas peço licença para dividi-la com todos aqueles que, na distância dos humildes povoados, esquecidos da civilização, preservam na memória privilegiada os tesouros fabulosos de uma cultura que o Brasil insiste em ignorar. Estes, sim, no silêncio do seu anonimato são, para mim, as grandes personalidades da cultura brasileira e norte-rio-grandense.&#8221;</p>
<p>É por isso que admiro e louvo Deífilo Gurgel.</p>
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		<title>Os sete pecados capitais</title>
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		<pubDate>Mon, 02 Jan 2012 17:52:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clotilde Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Eu nunca tinha lido A Divina Comédia. Já li A Ilíada, A Odisséia, e Os Lusíadas, mas A Divina Comédia nunca. Aí me acontece que por força do ofício e da amizade, aceitei a incumbência de ler um trabalho de um amigo meu justamente sobre A Divina Comédia, com o objetivo de ver se o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_4100" class="wp-caption alignnone" style="width: 490px"><a href="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2012/01/pecadoscapitais.jpg"><img class="size-full wp-image-4100" title="pecadoscapitais" src="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2012/01/pecadoscapitais.jpg" alt="" width="480" height="474" /></a><p class="wp-caption-text">Hyeronimus Bosch e sua representação dos sete pecados capitais.</p></div>
<p>Eu nunca tinha lido <strong>A Divina Comédia</strong>. Já li <strong>A Ilíada</strong>, <strong>A Odisséia</strong>, e <strong>Os Lusíadas</strong>, mas <strong>A Divina Comédia </strong>nunca. Aí me acontece que por força do ofício e da amizade, aceitei a incumbência de ler um trabalho de um amigo meu justamente sobre A Divina Comédia, com o objetivo de ver se o tal trabalho estava legal, se atendia às normas acadêmicas, essas coisas. Prudentemente, resolvi ler antes a obra, para não incorrer em nenhuma aberração conceitual ou estética, comprometendo assim a minha fama de pessoa culta e bem informada.</p>
<p>Li e achei um barato, mas fiquei muito impressionada com o Inferno. Nunca pensei que tivesse <strong>tanto pecado diferente</strong> no mundo. Todos os meus terrores de <a href="http://migre.me/ebHP"><strong>criança interna em colégio de freiras</strong></a> voltaram e eu passei bem umas duas noites sem dormir. E comecei a pensar nessa história de pecado.</p>
<p>No internato, no colégio das freiras, aprendi que existem <strong>dois tipos de pecado: os veniais e os mortais</strong>. Os veniais são pecadinhos bestas, como estirar a língua quando a professora está de costas ou tomar a cocada da mão do irmão menor.  Os pecados mortais não. Esses são perigosos. São aqueles que levam você diretinho para o Inferno, que nos meus pavores de criança era pior, muito pior do que o Inferno de Dante. Hoje não acredito mais em Inferno. Mas acredito nos pecados. Nos pecados mortais. Naqueles que a Igreja chamou de pecados capitais.</p>
<p>Para quem não se lembra mais, <strong>os Pecados Capitais são sete</strong>. Desses sete, quatro são aqueles que se cometem contra o Espírito e que prejudicam tanto quem os comete quanto a pessoa contra a qual são cometidos. São <strong>a Ira, a Cobiça, a Inveja e o Orgulho</strong>. E desses, meu filho, Deus me livre. São uns pecados tão feios, tão cabeludos que eu acho que deveria existir mesmo Inferno para trancafiar de vez lá dentro todo mundo que fizesse esse tipo de coisa.</p>
<p>Mas os outros três, ah, meu caro leitor, os outros três <strong>são os pecados mais geniais e mais gostosos do mundo</strong>. São os pecados que se comete contra o Corpo e, se ofendem alguém, <strong>ofendem somente quem os comete</strong>. Seu efeito maléfico não se estende a outras pessoas. São <strong>a Preguiça, a Gula e a Luxúria</strong>.</p>
<p>E eu vou fazer o quê, <strong>pobre pecadora que sou </strong>dos pecados do corpo? Como o gato Garfield, sou deliciosamente preguiçosa, refinadamente gulosa e gostosamente narcisista, sendo o narcisismo a forma mais elaborada de Luxúria que pode existir.</p>
<p>Fazer o quê? Penitência? Ato de contrição? Ou será que <strong>o Inferno me espera</strong>, o de Dante e o outro, com seus abismos de fogo e lava prontos para me devorar? O que vocês acham?</p>
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		<title>Deixe de pantim!</title>
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		<pubDate>Wed, 28 Dec 2011 02:49:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clotilde Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Um dia desses, discutia-se numa das listas que freqüento na Internet sobre o significado das palavras “pantim” e “muganga”. Bráulio Tavares escreveu sobre isso um dia desses no seu blog. Eu passei minha infância ouvindo as duas palavras, incorporadas no rico dialeto caririzeiro-paraibano que Mamãe falava. Pantim é difícil de definir. É quando você faz [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><span style="color: #000000;">Um dia desses, discutia-se numa das listas que freqüento na Internet sobre o significado das palavras <strong>“pantim” </strong>e <strong>“muganga”. </strong>Bráulio Tavares escreveu sobre isso um dia desses <a href="http://mundofantasmo.blogspot.com/2011/12/2744-palavra-pantim-20122011.html"><strong>no seu blog</strong></a>.</span></p>
<p><span style="color: #000000;"> </span></p>
<div id="attachment_4087" class="wp-caption alignleft" style="width: 160px"><a href="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2011/12/pai_e_mae.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-4087" title="pai_e_mae" src="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2011/12/pai_e_mae-150x150.jpg" alt="x" width="150" height="150" /></a><p class="wp-caption-text">Papai e Mamãe</p></div>
<p>Eu passei minha infância ouvindo as duas palavras, incorporadas no rico dialeto caririzeiro-paraibano que Mamãe falava.</p>
<p><span style="color: #000000;"><strong>Pantim </strong>é difícil de definir. É quando você faz algo para &#8220;distrair o inimigo&#8221;, ou seja, quando negaceia, disfarça, enrola&#8230; Ou quando você falsifica uma ação para obter algo que não quer explicar diretamente. Já <strong>muganga</strong> é trejeito facial ou corporal, careta.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Voltando ao &#8220;pantim&#8221;, <strong>o diálogo abaixo</strong>, travado entre meus pais numa noite, explica melhor:</span></p>
<p><span style="color: #000000;">- Nilo, onde tu tava até uma hora dessa? – Mamãe, direta e nada sutil, atacava com a pergunta.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">- Mas minha filha, é somente uma da manhã.</span></p>
<p><span style="color: #000000;">- Sim, mas onde tu tava?</span></p>
<p><span style="color: #000000;">- Você sabe Fulano? – começava papai. – Presidente da Associação Comercial? Pois eu encontrei com ele ontem&#8230;</span></p>
<p><span style="color: #000000;">- Não tou falando de ontem, mas de hoje. Onde é que tu tava?</span></p>
<p><span style="color: #000000;">- Espere,  eu preciso lhe explicar. Você sabe que em Campina, desde que o prefeito mudou, que todos esses órgãos, como a Associação Comercial, a Federação das Indústrias, a&#8230;</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Era aí que mamãe interrompia, já impaciente:</span></p>
<p><span style="color: #000000;">- “Ômi”, deixa de pantim e diz logo onde é que tu tava até uma hora dessa!</span></p>
<p><span style="color: #000000;">(&#8230;)<br />
</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Postei esse diálogo na lista para exemplificar o que era o tal do pantim. Aí <strong>Leo Sodré</strong>, participante da lista, escreveu:</span></p>
<p><span style="color: #000000;">- Mas, onde Nilo estava mesmo? É bem capaz de ter levado Omega nessa farrinha&#8230;” (Omega era o avô de Leo, amigo de Papai).</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Eu escrevi:</span></p>
<p><span style="color: #000000;">- Nilo devia estar com Omega no cabaré de Zefa Tributino, ou na Unidade Moreninha. Os dois assinavam ponto num ou noutro lugar toda noite.&#8221; (As referências são à vida noturna de Campina Grande na década de 1950/60)</span></p>
<p><span style="color: #000000;">Aí <strong>Bob Motta</strong>, que é poeta, escreveu:</span></p>
<p><span style="color: #000000;"><em>Nilo tava c&#8217;á bixiga, (A)<br />
e se sintindo no céu. (B)<br />
Lhe juro, Crotilde, amiga, (A)<br />
foi de beréu in beréu. (B)<br />
Teve lá no Canaríin, (C)<br />
dispôi saiu de finíin, (C)<br />
mode qui num tava só; (X)<br />
duis putêro de Campina, (D)<br />
visitô os das Bunina, (D)<br />
da Prata e Bodocongó&#8230; (X)</em></span></p>
<p><span style="color: #000000;"> </span></p>
<div id="attachment_4088" class="wp-caption alignright" style="width: 160px"><a href="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2011/12/bobmotta_pq.jpg"><img class="size-thumbnail wp-image-4088" title="bobmotta_pq" src="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2011/12/bobmotta_pq-150x150.jpg" alt="" width="150" height="150" /></a><p class="wp-caption-text">O poeta Bob Motta.</p></div>
<p>(Veja <strong>o esquema de rimas</strong>: o 1º verso rima com o 3º; &#8212; o 2º com o 4º; &#8212;  o 5º com o 6º; &#8212; o 7º com o 10º; &#8212; e o 8º com o 9º. A estrofe é uma <strong>décima </strong>que comporta variados esquemas de rima, sendo este citado apenas um deles. A métrica é <strong>sete sílabas, redondilha maior</strong>, que você reproduz pronunciando em voz alta as palavras “ma-ra-cá,  ma-ra-ca-tu”. Além disso, Bob Motta usa  a chamada “linguagem matuta”, que consiste em um “português estropiado&#8221; &#8211; que não é usada nem pelo cantador de viola, nem pelo autor de folhetos de cordel e nem por mim, que procuramos usar sempre o português correto, mas é característica da chamada &#8220;poesia matuta&#8221;, cujo principal representante foi o poeta Catulo da Paixão Cearense. Forneço essa explicação para que as pessoas entendam como é complexa e rica a arte da <strong>poesia popular nordestina.</strong>)</p>
<p><span style="color: #000000;">Eu, que não deixo verso sem resposta, respondi seguindo o mesmo esquema, mas no calor do improviso deixei escapar a rima da terceira linha.</span></p>
<p><em><span style="color: #000000;">Nilo não tava sozinho<br />
Na rota da sacanagem<br />
Com o seu amigo Omega<br />
Em total camaradagem<br />
Lá em Zefa Tributino<br />
Beberam uísque do fino<br />
Com Paraguaíta e Nina<br />
E com Chiquinha Dezoito<br />
Pintaram o sete e o oito<br />
Nos cabarés de Campina&#8230;</span></em></p>
<p><span style="color: #000000;">Bob Motta escreveu, repondendo:</span></p>
<p><em><span style="color: #000000;">Nilo tava de zonzêra,<br />
lá na Ìndios Carirís,<br />
bebeu quage a noite intêra,<br />
no Canaríin, pidiu bis.<br />
Na Unidade Moreninha,<br />
lá nais Bunina intêrinha,<br />
o peste num tava só;<br />
tava prá lá de intêro,<br />
foi in tudo qui é putêro,<br />
da Prata e Bodocongó&#8230;</span></em></p>
<p><span style="color: #000000;">Aí eu fechei:</span></p>
<p><em><span style="color: #000000;">E quando chegou em casa<br />
Mais pra lá do que pra cá,<br />
Cleuza já tava na brasa<br />
E começou o fuá:<br />
Neguinho, conte direito!<br />
Me conte de todo jeito,<br />
Eu lhe peço mesmo assim!<br />
Onde tu tava, maldito?<br />
Tu acha isso bonito?<br />
Ômi, deixe de pantim!</span></em></p>
<hr /><span style="color: #000000;"><em><span style="color: #003366;">Este post é dedicado <strong>à pesquisadora Maria Alice Amorim</strong>, minha especial amiga, cujo trabalho sobre poesia popular está merecendo um post especial somente para ela, coisa que venho devendo há meses.</span></em></span></p>
<p><em><em><br />
</em></em></p>
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		<title>Quatro histórias e um samba</title>
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		<pubDate>Mon, 26 Dec 2011 20:26:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clotilde Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[Cultura]]></category>
		<category><![CDATA[Curiosidades]]></category>
		<category><![CDATA[Humor]]></category>
		<category><![CDATA[Adoniran Barbosa]]></category>
		<category><![CDATA[histórias de Natal]]></category>
		<category><![CDATA[Mario de Andrade]]></category>
		<category><![CDATA[O peru de Natal]]></category>
		<category><![CDATA[Papai Noel]]></category>
		<category><![CDATA[Véspera de Natal]]></category>

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		<description><![CDATA[Pouco antes do Natal, a reportagem do Correio da Paraíba quis saber qual era a obra literária ou musical que eu gostava e que tivesse como tema o Natal. Lembrei logo do conto “O peru de Natal”, de Mário de Andrade, onde o autor desconstrói o sentimento natalino de amor e congraçamento, estabelecendo uma narrativa [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Pouco antes do Natal, a reportagem do Correio da Paraíba quis saber qual era a obra literária ou musical que eu gostava e que tivesse como tema o Natal. Lembrei logo do conto <a href="http://www.releituras.com/marioandrade_natal.asp"><strong>“O peru de Natal”, de Mário de Andrade</strong></a>, onde o autor desconstrói o sentimento natalino de amor e congraçamento, estabelecendo uma narrativa que parte exatamente do contrário; a vingança. Só que, na contramão do que se poderia esperar, as coisas vão se adoçando ao longo da história e esta se conclui deixando no leitor um sentimento de que, apesar de tudo, as coisas podem ser boas, e que a felicidade é possível.</p>
<p>Aí, eu comecei a me lembrar de outras narrativas sobre o Natal, das histórias engraçadas sobre presentes e pedidos ao Papai Noel – como o do garoto que pediu ao bom velhinho um ônibus de presente, para que a mãe, que precisava andar de ônibus e que sempre pegava o coletivo lotado, pudesse ter um ônibus só dela, para viajar com mais conforto.</p>
<p>Por tabela, e dessa vez sem ter nada a ver com o Natal, lembrei também da história do estudante, filho de milionário dos emirados árabes, estudando em universidade inglesa. O rapaz, acanhado de chegar todo dia na escola em luxuoso Rolls-Royce, falou desse incômodo ao pai, e referiu que todos os colegas iam para a escola de trem. O ricaço não vacilou e comprou um trem para levar o filho à aula.</p>
<p>Voltando ao Natal, há uma história muito meiga. O padre viu que uma garotinha entrava sorrateiramente na igreja e tirava a imagem do Menino Jesus do presépio. Lá fora, supreendeu a menina colocando a imagem da cestinha da bicicleta nova, e preparando-se para pedalar. “Onde pensa que vai?”, perguntou o padre. Ela respondeu: “Ah, padre, eu rezei muito para o Menino Jesus pedindo uma bicicleta de Natal, e prometi a ele que se ganhasse vinha buscá-lo para dar uma volta&#8230;”</p>
<p>Finalmente, nada melhor do que um dos meus sambas preferidos, “Véspera de Natal”, do grande Adoniran Barbosa, onde o poeta narra uma estranha e patética aventura.</p>
<p><a href="http://www.youtube.com/watch?v=6FpwEEqg1Js">&#8220;Véspera de Natal&#8221;, de Adoniran Barbosa</a></p>
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		<title>A trama da renda</title>
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		<pubDate>Sun, 25 Dec 2011 13:23:34 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clotilde Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
		<category><![CDATA[atividades em 2011]]></category>
		<category><![CDATA[planos para 2012]]></category>
		<category><![CDATA[prestando contas]]></category>
		<category><![CDATA[relatório]]></category>

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		<description><![CDATA[Sempre gosto de, no final do ano, fazer um apanhado das coisas que realizei no período. Isso porque tenho às vezes a tendência de achar que o tempo está passando e eu não estou fazendo nada. Este ano de 2011 foi muito produtivo e estou feliz com o que andei aprontando. Só pra você ter [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<div id="attachment_4067" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><a href="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2011/12/em-acao-dando-oficina1.jpg"><img class="size-medium wp-image-4067" title="em acao dando oficina" src="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2011/12/em-acao-dando-oficina1-300x176.jpg" alt="" width="300" height="176" /></a><p class="wp-caption-text"> </p></div>
<p>Sempre gosto de, no final do ano, fazer um apanhado das coisas que realizei no período. Isso porque tenho às vezes a tendência de achar que o tempo está passando e eu não estou fazendo nada.</p>
<p>Este ano de 2011 foi muito produtivo e estou feliz com o que andei aprontando. Só pra você ter uma ideia:</p>
<p>Lancei dois livros novos: <strong>“O Verso e o briefing: a publicidade na literatura de cordel”</strong>, lançado em Natal (agosto) e Recife/Bienal de Pernambuco (setembro); e <strong>“Um herói do cotidiano: vida e advocacia de Leidson Farias”</strong>, lançado em Campina Grande, em dezembro.</p>
<p>Fiz <strong>palestras</strong> em eventos, escolas e universidades. Muitas.</p>
<p>Aprendi a ler sumariamente <strong>uma partitura musical</strong> e executá-la ao piano. Eu disse: <strong>sumariamente</strong>. Mas continuo estudando.</p>
<p>Estou cantando em coral, no naipe dos baixos &#8211; sim, <strong>a minha voz é estranha </strong>e linda.</p>
<p>Apareci um monte de vezes em jornais e programas de TV. São <strong>as saudades do palco</strong>, que procuro amenizar dessa maneira.</p>
<p>Twittei muito e <strong>bloguei pouco</strong>. Mas não deixei nenhum e-mail pessoal sem resposta.</p>
<p>Escrevi muito, e <strong>há textos novos </strong>para publicar no próximo ano.</p>
<p>Desfrutei de incontáveis horas de <strong>boa leitura</strong>.</p>
<p>Também vi TV, <strong>filmes e séries</strong>, minha paixão.</p>
<p>Perdi <strong>dez quilos</strong> e reencontrei minha cintura.</p>
<p>Encontrei <strong>amigos queridos</strong> em volta de cafezinhos e boas ideias.</p>
<p><strong>Viajei</strong> e conheci gente nova, interessante e talentosa.</p>
<p>Continuei saudável e com todas as <strong>taxas normais</strong>.</p>
<p>Troquei meu velho Palio-1996 por <strong>um carro vermelho </strong>e mais novo.</p>
<p>E você, meu caro leitor, participou comigo desses momentos, nem que seja apenas lendo essas mal tecladas linhas. Por isso quero lhe agradecer por me dar essa felicidade.</p>
<p>Quanto a 2012, <strong>eu não faço pedidos</strong> para o Ano Novo.</p>
<p>Aprendi, na idade em que estou, a não me incomodar muito com o futuro, e não me deter muito nas recordações do passado. O presente, que está aqui e agora, é tudo o que me interessa. Penso que a vida é como uma renda feita de linha colorida, toda enrolada em um novelo que eu vou puxando com minha agulha de crochê e vou tecendo, <strong>ponto por ponto, um de cada vez</strong>, um enganchado no outro, enquanto houver linha, enquanto as mãos puderem segurar a agulha e enquanto a mente puder conceber a trama da renda.</p>
<p>Então, mãos à obra!</p>
<p><em>A foto acima foi feita por Kaleb Melo surpreendendo-me em plena ação enquanto dava oficina de teatro para o Elenco Mosh.</em></p>
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		<title>As coisas supérfluas</title>
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		<pubDate>Fri, 23 Dec 2011 13:40:29 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clotilde Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[Comportamento]]></category>
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		<description><![CDATA[O post abaixo é um dos textos do meu livro Coração Parahybano que você pode baixar gratuitamente clicando aí ao lado, no topo da coluna da direita deste blog. O Natal se aproxima e com ele todo o cortejo de rituais e tradições desta festa que já foi pagã, hoje é cristã e, do jeito [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>O post abaixo é um dos textos do meu livro Coração Parahybano<em> </em></em><em></em><em>que você pode baixar gratuitamente clicando aí ao lado, no topo da coluna da direita deste blog.<br />
</em></p>
<hr />
<div id="attachment_4058" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><a href="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2011/12/spiderman2-01800.jpg"><img class="size-medium wp-image-4058" title="spiderman2-01800" src="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2011/12/spiderman2-01800-300x280.jpg" alt="" width="300" height="280" /></a><p class="wp-caption-text">  </p></div>
<p>O Natal se aproxima e com ele todo o cortejo de rituais e tradições desta festa que já foi pagã, hoje é cristã e, do jeito que as coisas andam, talvez se torne pagã novamente, trocando as igrejas pelos shopping-centers e as divindades cristãs pelos ídolos da TV com os quais todo mundo quer se parecer. As tais catedrais do consumo estão repletas de pessoas em busca das “lembrancinhas” que, mesmo simples e baratinhas, tornam todo mundo tão feliz. Prudentemente, fiz todas as minhas compras até domingo passado e agora me divirto apenas em fazer os pacotes e pensar na mensagem que vou escrever para cada um.</p>
<p>Gosto de me lembrar dos presentes que ganhei ao longo dessas décadas de vida, e foram todo tipo de presente. Nunca consegui me esquecer de um pianinho de dez teclas, do dó ao mi, que ganhei de Papai quando tinha dez anos. Ficava horas, sentada no chão, tirando melodias no pequeno teclado e sentindo falta de alguns sons que somente depois descobri em um piano maior, escondidos nas teclas pretas que o meu pianinho não tinha.</p>
<p>Ganhei brinquedos e livros quando era criança, roupas e livros em mocinha, jóias, bijuterias, perfumes e livros depois de adulta. Até hoje, continuo ganhando livros, sempre acompanhados dos presentes que gosto mais: bijuterias, perfumes, écharpes, caixinhas de madeira e porcelana, leques, cadernetas&#8230;</p>
<p>E fora os livros, é claro, gosto muito mesmo dessas pequenas bobagens que muitas vezes não servem para nada e das quais já temos um bom número. Supérfluas, desnecessárias, por isso mesmo fazem a nossa festa e a nossa alegria, porque presente tem que ser algo extra, algo diferente, e presentear com aquilo que normalmente a gente tem que comprar no dia-a-dia é a coisa mais sem graça do mundo.</p>
<p>É como aquele garotinho de uns quatro anos que vi na loja e que, enquanto os pais escolhiam para ele uma roupinha, gritava em alto e bom som: “Mas eu não quero essa roupa normal! Eu quero um traje completo do Homem-Aranha!” Esse meninozinho, para mim, é o símbolo do Natal, neste ano de 2005. Sair do lugar comum, da roupinha linda e de griffe mas ao mesmo tempo chata e convencional, e ousar no traje diferente, cheio de atitude, na “roupa do Homem-Aranha”. Pensar diferente, sair da mesmice, fazer algo inusitado e, principalmente, desfrutar do supérfluo.</p>
<p>Como disse o imortal William Shakespeare, no “Rei Lear”, Ato II Cena 4: “Até os homens mais pobres precisam de coisas supérfluas”.</p>
<p>Feliz Natal.</p>
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		<title>Louvação a Campina Grande</title>
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		<pubDate>Wed, 14 Dec 2011 11:45:03 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clotilde Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[No dia 12 de dezembro, antes de ontem, recebi da Câmara de Vereadores de Campina Grande a Medalha de Honra ao Mérito daquela Casa, uma propositura da Vereadora Maria Barbosa, em nome da minha atuação na área cultural projetando sempre o nome da minha terra. A festa foi bonita, e recebi com muito carinho e [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>No dia 12 de dezembro, antes de ontem, recebi da Câmara de Vereadores de Campina Grande a Medalha de Honra ao Mérito daquela Casa, uma propositura da Vereadora Maria Barbosa, em nome da minha atuação na área cultural projetando sempre o nome da minha terra. A festa foi bonita, e recebi com muito carinho e gratidão todas as homenagens que me fizeram os meus conterrâneos. Na ocasião, fiz uma espécie de discurso de agradecimento que todo mundo achou bonito e me pediram cópia. Então, posto aqui. Em tempo: algumas coisas somente o povo de Campina entende. Mas discurso louvando a terra natal é assim mesmo.</em></p>
<hr />Eu moro fora há quarenta anos, mas basta ouvir um trecho de música, sentir um cheiro de comida ou simplesmente ver um tom de azul diferente no céu para bater a saudade desta terra amada, uma saudade doída, violenta, que engrossa a garganta e afoga os meus olhos no sal das lágrimas.</p>
<p>Saudade de respirar o ar frio desta serra, de ver as noites brancas de inverno, de andar na rua ouvindo a fala paraibana.</p>
<p>Saudade da voz rouca de Papai, o jornalista Nilo Tavares, a recitar Augusto dos Anjos, e do contralto poderoso de Mamãe, Cleuza Santa Cruz Tavares, a Marquesa, que nos acordava bem cedo cantando as músicas de Rosil Cavalcante.</p>
<p>Saudade de um tempo perdido na lembrança, numa Campina que hoje só existe na minha mente, envolta na bruma nostálgica do passado.</p>
<p>São muitas as imagens da minha Campina Grande.</p>
<p>A feira, cheia de sons, ruídos, cheiros e sabores.</p>
<p>As matinais do Babilônia e do Capitólio.</p>
<p>A praça Clementino Procópio, primeiro com a fonte luminosa, maravilha multicor que fazia dançar meus olhos de criança, e depois com o passeio inocente das meninas-moças em busca do primeiro namorado.</p>
<p>A Rádio Borborema e os programas de auditório, com Jackson do Pandeiro, Genival Lacerda e Janete Alves no Clube Papai Noel.</p>
<p>O Colégio Alfredo Dantas, o medo que a gente tinha de Dona Alcide e a ternura do professor Loureiro. O Estadual da Prata, que abrigou minhas rebeldias adolescentes.</p>
<p>Os bailes, o conjunto de Ogirio, a voz de Ronaldo Soares, as matinês do Gresse e o São João no Clube dos Caçadores. O sorvete na Pingüim, o passeio no final da tarde na Maciel Pinheiro, flertando com os estudantes da Poli, os melhores partidos da cidade.</p>
<p>O Cine Clube, a batucada de Lanca, as reuniões na casa de Marcos e Jackson Agra, as noites no Museu de Arte.</p>
<p>Esta é a Campina Grande que vive na minha mente e que aí ficará sempre, parafraseando o poeta Manuel Bandeira, “não como forma imperfeita neste mundo de aparências, mas na eternidade, intacta, suspensa no ar.”</p>
<p>Este tesouro de lembranças fica mais rico hoje, com esta medalha que recebo com a mais profunda gratidão e que significa que, do jeito que eu não me esqueci dela, a minha terra também não se esqueceu de mim.</p>
<p>E antes que a emoção fique maior do que a minha voz, quero agradecer por tudo, por este berço querido e pelo orgulho trezeano de dizer que sou campinagrandense, oh, linda flor, linda morena, Campina Grande, minha Borborema!</p>
<p>MUITO OBRIGADA.</p>
<div id="attachment_4093" class="wp-caption alignnone" style="width: 375px"><a href="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2011/12/com-trofeu.jpg"><img class="size-large wp-image-4093 " title="com trofeu" src="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2011/12/com-trofeu-760x1024.jpg" alt="" width="365" height="491" /></a><p class="wp-caption-text"> </p></div>
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		<title>D.A.D.I.A.</title>
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		<pubDate>Sat, 05 Nov 2011 00:28:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clotilde Tavares</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Circula na Internet um e-mail engraçadíssimo que fala sobre a D.A.D.I.A. &#8211; Síndrome de Desordem da Atenção Deficitária na Idade Avançada. Em tom jocoso, o autor narra as desventuras de uma pessoa de mais de 40 anos que começa a padecer daquele esquecimento que vai se tornando natural com o aumento da idade. Natural, talvez, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Circula na Internet um e-mail engraçadíssimo que fala sobre a D.A.D.I.A. &#8211; Síndrome de Desordem da Atenção Deficitária na Idade Avançada. Em tom jocoso, o autor narra as desventuras de uma pessoa de mais de 40 anos que começa a padecer daquele esquecimento que vai se tornando natural com o aumento da idade. Natural, talvez, mas incômodo, fazendo com que a gente se pegue de pé, no meio da sala, sabendo que está vindo de um lugar onde estava fazendo algo e indo para outro, onde vai também fazer algo, mas não consegue se lembrar nem dos lugares nem dos “algos”. Vou dar um exemplo.</p>
<p>Estou sentada no computador escrevendo um artigo para uma revista, uma encomenda de grande responsabilidade com prazo para entregar. O telefone toca. Onde está? Ah, sim, ficou no sofá da sala onde atendi ao último telefonema. Saio do computador e vou até a sala, onde atendo e depois, como estou na sala, vejo uma planta que precisa de água. Na varanda, pego o regador e quando entro na cozinha para encher o regador na torneira, aproveito para tomar água. Coloco o regador no balcão, tomo a água e já que abri a geladeira tiro do congelador o peito de frango para descongelar até a hora do almoço. Aí vejo em cima do microondas a minha agenda, que há pouco procurei sem sucesso pelo escritório e pelo quarto. Como será que essa agenda veio parar aqui? É o que me pergunto, enquanto pego a agenda. Aí, com a agenda na mão, me lembro de marcar hora na manicure, minhas unhas estão horríveis. Talvez seja melhor tirar logo esse esmalte descascado e vou ao banheiro pegar a acetona. No banheiro, escovo o cabelo, e fico assim aérea, com aquela sensação de quem está perdida&#8230; onde era mesmo que eu estava? Ah, sim, ia marcar hora na manicure. Mas onde é que eu deixei a agenda? Ficou na cozinha. Ao voltar, vejo na sala a planta, que ainda não reguei. Onde foi que eu deixei o regador? E o que é que eu estava fazendo antes? Ah, sim, estava no banheiro procurando a acetona para tirar o esmalte das unhas&#8230; Vida boa essa de aposentada, onde não tenho nada para fazer, a não ser me preocupar com as unhas. Já que não tenho nada para fazer, e estou na sala, vou ligar a TV para as novidades do noticiário.</p>
<p>Afundo no sofá, distraio-me com a televisão por um tempo quando o telefone toca. Toca na varanda, onde o deixei quando fui pegar o regador, o qual ficou na cozinha, onde peguei a agenda, que não levei para o banheiro onde fui pegar a acetona&#8230; Atendo o telefone. É o editor da revista, que pergunta: “Clotilde, estou esperando o artigo, vai mandar ou não?”</p>
<p>O artigo! Meu Deus, tinha esquecido. É a D.A.D.I.A&#8230;</p>
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		<title>Homenagem a um morto querido</title>
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		<pubDate>Wed, 02 Nov 2011 15:03:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Clotilde Tavares</dc:creator>
				<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>

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		<description><![CDATA[Ao contrário da maioria das crianças, eu não comecei a ler Monteiro Lobato pelo primeiro livro da série, que é &#8220;Reinações de Narizinho&#8221;. Eu devia ter uns dez anos e havia acabado se sair do internato quando Papai me deu &#8220;Emília no País da Gramática&#8221;. Não era o meu primeiro livro, leio desde muito pequena, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Ao contrário da maioria das crianças, eu não comecei a ler Monteiro Lobato pelo primeiro livro da série, que é &#8220;Reinações de Narizinho&#8221;. Eu devia ter uns dez anos e havia acabado se sair do internato quando Papai me deu &#8220;Emília no País da Gramática&#8221;. Não era o meu primeiro livro, leio desde muito pequena, acho que desde os quatro ou cinco anos de idade, mas fiquei imediatamente apaixonada pela história das palavras e não esqueço das ilustrações, onde as palavras eram representadas por figuras humanas, com atitudes físicas que tinham a ver com o significado delas. Uma maravilha.</p>
<p>Depois papai trouxe &#8220;Viagem ao Céu&#8221;, e eu me apaixonei por Astronomia, mania que tenho até hoje. E em seguida veio &#8220;O Minotauro&#8221;, e nova paixão: a mitologia grega. Só aí então é que li &#8211; dessa vez eu pedi, e papai trouxe &#8211; &#8220;Reinações de Narizinho&#8221;.  Li todos, depois desse. A coleção que eu tinha, já muito estragada, desapareceu no pó dos livros velhos, mofados e estragados que, quando eu saí de casa para estudar fora, sucumbiram à umidade de um daqueles rigorosos invernos de Campina Grande. Mas Monteiro Lobato mora no meu coração até hoje, como um tio velhinho, carinhoso, e cheio de histórias pra contar. Quando penso nelo, sou novamente menina, sempre.</p>
<div id="attachment_844" class="wp-caption alignnone" style="width: 310px"><a href="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2009/05/monteiro_lobato1.jpg"><img class="size-medium wp-image-844" title="monteiro_lobato" src="http://umaseoutras.com.br/wp-content/uploads/2009/05/monteiro_lobato1-300x225.jpg" alt="" width="300" height="225" /></a><p class="wp-caption-text">Túmulo de Monteiro Lobato, no cemitério da Consolação, em São Paulo. Foto de novembro de 2007.</p></div>
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