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Marlyse Meyer (1924-2010)

Clotilde Tavares | 21 de julho de 2010

Nesta segunda-feira que passou, morreu uma grande dama da Literatura e da Crítica brasileira: Marlyse Meyer.

Não vou me deter nas suas obras, ou no seu trabalho, que é vasto e inclui crítica, ensaio e dramaturgia, porque isso a imprensa tem feito, e se você fizer uma busca no Google vai encontrar tudo melhor do que se eu escrevesse aqui. O curioso é que, em post do dia 11 de junho, eu a homenageei como uma das mulheres que fizeram diferença em minha vida.

Conheci Marlyse Meyer aqui em Natal, há uns 15 anos, em evento organizado para homenagear o Dia Internacional da Mulher, eu acho. Como parte desse evento havia uma noite coletiva de autógrafos, onde muitas escritoras estavam presentes. No grande salão da Capitania das Artes, várias mesinhas isoladas umas das outras e, sentada a cada uma delas, a respectiva escritora, com seus livros, à espera do público. Eu entrei e fiquei olhando aquele arranjo estranho, pois se algumas delas tinham uma verdadeira multidão em volta, como a escritora Rachel de Queiroz, que ali estava, e uma ou outra escritora local que tinha entre amigos e familiares o seu público, outras estavam isoladas, sozinhas, e com aquela cara de simpatia resignada que a gente faz quando está pagando o maior mico mas não pode descer do salto e se dar por achada.

Uma delas me chamou a atenção, pelo porte, pela idade, pela elegância e pelo ar blasé com que encarava aquilo tudo. Não havia ninguém ao seu redor e eu disse para mim mesma:

- Vou conversar com aquela senhora.

E foi o que fiz. Apresentei-me, perguntei o nome dela, perguntei sobre o livro - já escrevi sobre ele, aqui – e começamos a nos descobrir uma à outra, duas mulheres tão diferentes mas tão iguais pela ressonância das preferências literárias e artísticas. Ela, como eu, era doida por teatro e pela cultura popular; por isso achamos assunto para conversa que durou mais de uma hora.

Aí, toda vez que ela vinha a Natal, eu ia bater onde ela estivesse, e ficávamos de conversê. Numa das suas visitas, ela foi ver a nossa peça O Pavão Mysteriozo, que estava em cartaz, dirigida por Marcos Bulhões, com adaptação minha, onde eu também atuava como atriz.

Ficou louca pelo espetáculo.

-Temos que levar essa peça a São Paulo imediatamenete – dizia ela, empolgada. – Vou falar com Antonio Nóbrega, aquele teatro dele é perfeito para vocês.

Infelizmente, o grupo era formado por amadores - no sentido pior da palavra, ou seja, por atores sem compromisso com o espetáculo. Não quiseram viajar e o pavão não conseguiu decolar nesse vôo. Ela, de outra vez que veio, lamentou muito isso.

Tenho vários livros seus com dedicatórias carinhosas. Sinto-me honrada pela maneira gentil com que sempre me tratou, compartilhando comigo um pouco do seu conhecimento, da sua inteligência e da sua companhia e papo agradável.

Na segunda-feira, ela deixou esta vida. Tinha 86 anos e estava doente.

E eu, me sentindo tampém um pouco órfã espiritualmente, presto-lhe aqui esta homenagem.

Abaixo, o seu obituário, publicado pela Folha de São Paulo.


A mulher que sabia demais
Jornal Folha de São Paulo – Cotidiano

MARCO RODRIGO ALMEIDA
DE SÃO PAULO
A erudição de Marlyse Madeleine Meyer era tamanha que surpreendia a todos que a conheceram. Durante sua carreira como professora de literatura da USP e da Unicamp, corria o boato de que apenas Antonio Candido teria lido mais livros do que ela. Voraz por conhecimento, Marlyse conhecia toda a produção literária brasileira.

Sua formação, entretanto, foi variada. Discorria com igual prazer tanto sobre o romance francês do século 19 quanto sobre a cultura popular e as telenovelas. Ativa, mesmo depois de aposentada era presença constante nas universidades. Orientou dezenas de projetos e sempre tinha um livro para emprestar aos alunos.

A relação da professora com a cultura francesa aprofundou-se em 1953, quando se mudou com o marido, o físico João Meyer, para Paris, onde deu aula de cultura brasileira na Sorbonne.

De volta ao Brasil em 1975, fundou um grupo de pesquisa na USP com o nome de Instituto de Altos e Baixos Estudos, fazendo alusão aos seus ecléticos interesses. Entre suas obras, destaca-se o livro “Folhetim – Uma História”, análise que aponta a relação da novela brasileira com o romance seriado francês do século 19.

Entre 1999 e 2001, Meyer dirigiu o Centro Brasileiro de Estudos da Fundação Memorial da América Latina. Às 9h30 de ontem, sofreu uma parada cardíaca. Morreu aos 85 anos. Divorciada, deixou três filhos e dois netos. O velório será hoje, a partir das 11h, no Cemitério Israelita do Butantã.

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