Teatro versus cinema
Clotilde Tavares | 10 de julho de 2009
Teatro e cinema: duas artes distintas, tão parecidas e tão diferentes. Quando o cinema surgiu, nos finais do século XIX, dizia-se que seria o fim do teatro; mas a luz elétrica, que deu suporte ao nascimento do cinema, também tornou possível ao teatro entrar numa nova fase estética, onde a iluminação passou a constituir um elemento importante da cenografia, sendo usada para desenhar espaços, suscitar climas, criar atmosferas. O cinema não acabou com o teatro e e ambos continuaram crescendo juntos, usando os mesmos elementos mas com diferenças que parecem pequenas mas são muito, muito grandes.
O primeiro desses elementos comuns ao cinema e ao teatro é a interpretação, em que uma pessoa (o ator) se transforma em outra (o personagem); o primeiro empresta seu corpo, sua voz, sua energia viva para esse que é um dos mais espetaculares fenômenos que é dado a alguém presenciar: a metamorfose. Do nada, usando apenas as palavras do texto e seu corpo, o ator cria um ser humano completamente diferente dele. Existe algo mais mágico, mais genial? Eu não conheço. Mas a interpretação é diferente para o cinema e para o teatro, e é por isso que grandes atores de teatro muitas vezes não se saem bem em frente às câmeras, e vice-versa.
O texto teatral também é diferente do roteiro cinematográfico em tudo, uma vez que neste último é preciso ter uma série de indicações técnicas que vão servir de guia para a filmagem, para a operação das câmeras propriamente ditas. Eu mesma sei escrever peças de teatro, já escrevi muitas, a maioria delas encenadas por aí, mas não sei nem para onde vai a técnica de escrever roteiros para cinema e muitas vezes fica difícil explicar para alguém, que quer porque quer que eu escreva um roteiro. “Mas eu não sei”, digo eu. “E você não escreve peças?” diz o outro. Escrevo, mas é muito diferente.
E quanto à maquilage, figurino, cenografia, a direção de arte como um todo, elementos também comuns às duas artes, é tudo muito muito diferente para o palco ou para a câmera. Só para tomar um elemento, o “close” do cinema é completamente impossível no teatro, onde nenhum espectador, pelo menos na maioria dos espetáculos, vê o ator da distância em que a câmera pega o ator de cinema. Também no cinema é permitido dar um leve suspiro, coisa que seria impossível no teatro. Os microfones sensibilíssimos do cinema captam qualquer tipo de ruído enquanto que no teatro, o ator pode até cochichar em cena mas tem de cochichar de forma a ser audível pelo menos até a fila “P”… (Aí ao lado uma foto histórica: Maria de Lia, Marcos Bulhões e esta que vos tecla, em 1991, na peça de Guto Greco “Papai Pirou nas Ondas do Rádio”. Ô saudade!)
Muitas vezes não nos tocamos das especificidades dessas duas artes porque não paramos para pensar no making-off de cada uma delas. Para mim, teatro e cinema, quando se misturam, são sempre fonte de excitação e prazer estético. Há alguns filmes sobre teatro que eu acho fundamentais para quem quiser experimentar esse prazer e, de quebra, conhecer o fazer teatral um pouco mais a fundo. A televisão também faz isso. Nesta semana a Rede Globo estreou uma série em que pretende retratar os bastidores de uma montagem teatral. Não gostei das últimas séries apresentadas pela emissora (“A Pedra do Reino”, “Capitu”, “Queridos Amigos” e “Maysa”) e como pensei que provavelmente não iria gostar dessa, me abstive de assistir, baseada também nos traillers que vi esses dias e na desvairada paixão que sinto pela obra de Shakespeare, que nos trailers me pareceu apenas servir de pano de fundo para mais uma bobagem global. Além disso, com essas minhas viagens entre Natal e João Pessoa nesta semana foi mesmo impossível.
Voltando ao assunto, sugiro com ênfase dois filmes. O primeiro deles é um filme de Woody Allen “Tiros na Broadway” (Bullets Over Broadway, 1994). Um diretor de teatro resolve montar uma peça de sua autoria; recebe o patrocínio de um gangster, e em troca tem que aceitar a namorada loura e burra do bandido no elenco. Além disso, o guarda-costas da loura, que vai toda noite ao teatro para os ensaios, parece entender mais de teatro do que o autor. É muito engraçado e um dos filmes menos conhecidos de Woody Allen.
O outro é um dos filmes de teatro que mais gosto: “Impróprio para Menores” (Noises off…,1992) dirigido por Peter Bogdanovich como o maravilhoso Michael Caine no papel principal. A expressão “noises off” significa algo como “sem barulho”, o que seria mais ou menos o desejo de todo diretor de teatro em relação à platéia. Mas o que você vai ver neste filme é exatamente o contrário. O diretor Lloyd Fellowes (Michael Caine) precisa estrear a peça no dia seguinte e os atores erram as falas a todo instante, saem para beber escondido, brigam nos bastidores, esquecem dos objetos de cena, tropeçam no cenário… Além disso, cada um desses atores vem de uma escola teatral diferente – um é stanislavskiano, outro vem da comédia – e isso atrasa e complica o ensaio, que vira uma loucura. O curioso é que o espectador – do filme, não da peça – tem o privilégio de vê-la duas vezes: uma do ponto de vista da platéia e outra depois, por trás, do ponto de vista dos bastidores.
Sempre levei esse filme para meus alunos de teatro assistirem. Era muito legal.
Então, aproveite.
NOTA – Relendo este post, que escrevi em 2009, vi que de lá pra cá aprendi a escrever também roteiros de filmes. Me solicitaram tanto que eu acabei correndo atrás, praticando e aprendendo. Nunca é tarde para novas aventuras.











Lá vou eu de novo, meu caro leitor, na minha eterna e incessante luta contra o barulho urbano, praga maldita que inferniza a vida dos habitantes das cidades.
É uma invenção genial. Parece uma caixa de som de 15cm x 8 cm. Você liga na tomada e pendura do lado de fora da janela, na direção dos latidos do cão. Quando os latidos superam um determinado nível, o aparelho inicia uma emissão ultrassônica por 10 a 15 segundos, que causa somente um pequeno desconforto no animal mas nada que o prejudique ou afete a sua saúde. O animal para imediatamente de latir. E o melhor: seu vizinho nem precisa saber. Essa maravilha custa apenas R$ 169,00 mais frete, em até três vezes no cartão; se você for ao exterior pode comprar por cerca de 60 dólares.
Lá estava eu no centro da cidade, sol a pino, calor abrasador, voltando de um reunião do Instituto de Genealogia. Um mulher emparelhou comigo. “Cuidado na bolsa”, disse ela. “Vinha dois caras ali atrás, colados com a senhora. Acho que eram ladrões.” Bem, eu ando agarrada com a minha bolsa, atracada, e não largo dela um instante. Agradeci e como já estava pertinho do estacionamento, entrei no carro e segui para o supermercado, onde ia fazer as compritchas da semana. Chegando lá, ao entrar no banheiro para me arrumar um pouco, qual não foi a minha surpresa quando dei por falta da volta que levava ao pescoço. Nada de mais, uma coisinha baratinha, que deve ter custado ai uns 40 reais, mas que parecia coisa boa, de ouro. Aí fiquei pensando: será que o ladrão tirou a volta do meu pescoço e eu nem vi? Provavelmente foi, porque o fecho estava em perfeito estado, a corrente era grossa e eu não senti nenhum empurrão ou qualquer tipo de contato.
Hoje é o Dia Mundial do Teatro. Então, deixem-me falar um pouco sobre essa arte em que milito há anos, e onde já fiz de quase tudo, principalmente como dramaturga, atriz, crítica, professora, diretora eventual, e principalmente, praticante apaixonada.
Sempre defendi, como pessoa de teatro, aquilo que chamo de preparação espiritual do ator. Essa tal preparação “espiritual” não tem nada a ver com religião, mas com a elevação do espírito, do intelecto, das idéias, dessa parte imponderável do ser humano que extrapola as habilidades corporais desenvolvidas pelos exercícios, que hoje em dia são muitas vezes colocadas como os principais requisitos para o trabalho teatral. Essas técnicas são importantes mas ficam vazias e mecânicas se o ator não tiver esse desenvolvimento interno, do “espírito”, da sua essência enquanto ser humano.






