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Natal cidade querida

Clotilde Tavares | 7 de junho de 2013

DISCURSO PROFERIDO PELA ESCRITORA CLOTILDE TAVARES NA CÂMARA MUNICIPAL DE NATAL POR OCASIÃO DO RECEBIMENTO DO TÍTULO DE CIDADÃ NATALENSE, NO DIA 6 DE JUNHO DE 2013.

Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Natal, em nome do qual saúdo as demais autoridades presentes.

Exmo. Sr. Vereador Hugo Manso, autor da proposta que me concede este título, meu querido amigo.

Amigos, companheiros de trabalho, meus professores, meus alunos, artistas, escritores, familiares,

Senhoras, Senhores,

Apesar do ambiente ser formal, eu não quero aqui fazer um discurso formal, um discurso de terno e gravata.

O que quero agora é contar a vocês uma história de amor. A história de um caso de amor que mantenho com esta cidade há mais de quarenta anos.

Tudo começou em 1970 quando aqui cheguei, vinda de Campina Grande, para estudar Medicina. Era o meu primeiro ano longe de casa, morando numa pensão na rua Voluntários da Pátria, ali perto da Santa Cruz da Bica, quase no Baldo. Sem amigos, sem família, logo nos primeiros dias tive que ir ao Hospital das Clínicas tirar um atestado médico e me vi, de repente, suspensa entre o céu e o mar na balaustrada da avenida Getúlio Vargas. Ali, às duas e meia da tarde, envolvida por aquela sinfonia azul que ia do mar de safira ao céu turquesa, naquele instante, capturada pela beleza, me apaixonei por esta terra.

Esses primeiros anos foram tempos heróicos. Muitas vezes simplesmente não havia dinheiro, e como matar a fome que meu corpo jovem e saudável manifestava quando o que eu tinha dava apenas para uma grapete e um pão doce, que deviam me sustentar por vinte e quatro horas? Mas era essa mesma juventude que me fazia ir e voltar a pé todos os dias da pensão, na rua Voluntários da Pátria ao Hospital das Clínicas, e parecia tão perto!

Ao lado das tarefas da faculdade, dos estudos, dos plantões, e aulas práticas, comecei a me ambientar na vida cultural da cidade. Iniciei no teatro em 1971, com o Grupo Alavanca de Teatro, tendo à frente Racine Santos, que ensaiava nos altos do Teatro de Amadores de Natal, na rua Voluntários da Pátria, onde também conheci e convivi com Sandoval Wanderley. Comecei também a estudar música – outro grande sonho -, na Escola de Música do Rio Grande do Norte, onde fui aluna de violoncelo do professor Piero Severi e integrei por um ano o naipe das cordas da Orquestra Sinfônica, sob a regência do maestro Clóvis Pereira. Mas a Faculdade me tomava todo o tempo e o teatro e a música precisaram ser deixados de lado.

Comecei a conhecer as pessoas e a fazer amizades, pessoas de teatro, gente da música, os colegas de faculdade, e os meus mestres na Medicina: Dr. Hiram Diogo Fernandes, Dr. Gilberto Wanderley, Dra. Ivalda Santana, Dr. Celso Matias, Dr. Onofre Junior, Dr. Heriberto Bezerra, Dr. Eudes Moura… Os nomes desses professores vêm à minha mente quando evoco aqueles que contribuíram decisivamente para a minha formação médica e também como ser humano e ressalto ainda, com destaque, o nome do Dr. Lauro Gonçalves Bezerra, que me abriu caminhos e horizontes, com quem trabalhei diariamente por mais de dez anos, na dura lide da saúde pública, num tempo em que não existia SUS nem PSF, subindo e descendo as escorregadias ladeiras da rua do Motor e convivendo com a comunidade de Brasília Teimosa. Quero também prestar minha homenagem de imorredoura saudade à Dra. Giselda Trigueiro, que foi para mim uma inspiração e exemplo a ser imitado como médica e cientista, pelas suas aulas magistrais e conduta humana com o paciente mas também como mulher bonita e elegante, como pessoa à frente do seu tempo, com inteligência superior e humanidade cativante, e que me distinguiu com a sua amizade.

Nos últimos anos de faculdade, já morando em Areia Preta, na rua Pinto Martins, eu me encantava todo dia com a visão mais querida desta cidade: a da balaustrada da Avenida Getulio Vargas, palco do meu primeiro encontro amoroso com Natal. Indo e voltando diariamente para o Hospital das Clínicas, aquele azul me alimentava e me envolvia e a paisagem deslumbrante atuava como um energético, me acalmava, me alimentava, me revigorava, recarregava minhas baterias.

A intenção era me formar em Medicina e voltar para Campina Grande, mas quem disse que eu pude? Em 1975, ao colar grau, Natal já havia me capturado com seu perfume, seu encanto, seu céu de brigadeiro e o carinho dos amigos que aqui eu já tinha.

Quando fui fazer mestrado no Recife, onde fiquei nos anos de 1978 e 1979, passei esses dois anos sem vir a Natal – era grande o medo que tinha de vir passar um final de semana aqui e não conseguir mais voltar para o Recife.

Nesta cidade querida vi correrem os anos mais belos da minha vida. Como professora do antigo Departamento de Saúde Coletiva e Nutrição da UFRN batalhei pela Saúde Pública, especificamente a causa do aleitamento materno e da nutrição infantil por anos, e produzi trabalhos dos quais ainda hoje me orgulho. Foram quase vinte anos de militância ininterrupta nessa área, ao lado do Dr. Lauro Bezerra, pioneiro do ensino da Nutrição no Rio Grande do Norte. E enquanto a vida ia tocando seu curso a música, o teatro, e a literatura continuavam ocupando os interstícios entre os estudos e trabalhos na área da saúde.

Alguém aí da platéia que me conhece há muito tempo – talvez até o vereador que me deu esse título – deve estar querendo me perguntar:

- Mas Clotilde, e a boemia? As noitadas? Vai passar por cima de tudo isso?

Eu respondo:

- Como poderia? Até os quarenta anos de idade fui uma grande boêmia, e aproveitei bastante a vida, minha gente! Conhecia todos os bares e botecos dessa cidade, da Tenda do Cigano ao Café Nice, do Chernobyl ao Tirraguso, do Mintchura ao Teco-Teco, do Equilibrista à Barraca de Santiago. Fui sócia-fundadora da República Independente da Praia dos Artistas; no verão, era habitante do Território Livre da Redinha, e sócia-foliã-honorária da Banda Gália, uma das maiores experiências anarco-lírico-carnavalescas que essa cidade já teve, junto com Olinto Rocha, Carlos Piru, Eugenio Cunha, Márcio Capriglione, Julinho Rezende, Zé Avelino, Sergio Dieb, Diva Cunha… E quando o clarim rompia a primeira nota na noite estrelada de Natal eu já caía dentro, no frevo, usando as fantasias mais loucas que alguém possa imaginar. Ah, e lembro dos meus queridos amigos dessa época, que já se foram, já se encantaram: Chico Miséria, André de Melo Lima, Sergio Dieb, Kiria Eleison, Malu Aguiar, Olinto Rocha. Quanta saudade!

Foram anos muito loucos! Foram anos experimentando o perigo, a alucinação da velocidade, os paraísos artificiais, a embriaguez dos sentidos. Até a última gota, esgotei essa tulipa dourada do Prazer, sorvida sem culpa, sem medo, e sem limite. Esgotadas as taças, aprendi que é preciso experimentar de tudo, mas tudo tem limite. E aos quarenta anos, decretei encerrada minha carreira na boemia.

A vida me pedia uma mudança. A Medicina, agora concentrada na docência e na pesquisa na área de Saúde Pública, preenchia uma parte do meu dia, dos meus interesses, mas eu sentia sempre, vindo do mais fundo das minhas entranhas, o chamado da Arte. E foi assim que o teatro voltou à minha vida em 1990, a partir de um encontro com Marcos Bulhões, hoje doutor em teatro pela USP e professor daquela Universidade. Naquele, tempo, Bulhões era ator da Stabanada Companhia de Teatro e estava selecionando atores para um espetáculo.

Foi o início de uma parceria diária militando na cena teatral da cidade. Fizemos, Bulhões e eu, muitos espetáculos, performances, intervenções cênicas, demos oficinas, cursos, éramos “duas-almas-num-corpo-só”. Como não havia espaço na minha vida para duas coisas tão absorventes, considerei que já havia dedicado mais de vinte anos à Medicina, e que agora era hora de voltar às artes. Eu tinha 42 anos de idade, E não tive medo de mudar. Transferi-me então para o Departamento de Artes da UFRN, onde passei a ensinar Folclore Brasileiro e disciplinas ligadas ao teatro.

Foi nessa época, a partir de 1990, que minha carreira de escritora começou a se encaminhar. Fui colunista semanal por anos do Jornal de Natal, Jornal de Hoje, O Mossoroense, Revista RN-Econômico, Revista da Telepesquisa, e na Tribuna do Norte, onde escrevi por dez anos, todos os domingos.

Os livros começam a aparecer a partir de 1987 e já são tantos! Livros, artigos, peças de teatro, folhetos de cordel… Entre todos eles, o meu livro que mais gosto: “Natal a Noiva do Sol”, adotado nas escolas da cidade, com o título emprestado da obra de Cascudo, quando ele diz as palavras imortais que eu sempre assino embaixo:

“Natal, Noiva do Sol, minha cidade querida, deu-me o que sempre esperei: a tranquilidade do espírito, a paz do coração, o amor pelas coisas humildes do mundo, no meio das quais sempre vivi. (…)”

O que dizer mais, de uma vida tão rica e tão produtiva, construída neste chão natalense, respirando o mesmo ar que Câmara Cascudo respirou, contemplando o mar aberto em navegos que Zila Mamede contemplou, e ouvindo as romanceiras tão caras aos ouvidos do mestre Deífilo Gurgel?

Aqui desfruto de perenes e sólidas amizades, como meus companheiros do Rotary e minha amiga quase-irmã Aldanira Barreto, em nome da qual saúdo o rotarismo natalense.

Os que foram meus alunos e hoje estão ocupando cargos importantes, e quando cruzo com eles em algum evento, blindados e defendidos por uma corte de assessores, se destacam do grupo quando me veem e me cumprimentam com aquele que é o meu maior título:

“ – Professora, que bom ver a Sra!…”

Meus parceiros na batalha da cultura: Henrique Fontes e a Casa da Ribeira, João Marcelino, Marcílio Amorim e o Elenco Mosh, Carlos Fialho e a editora Jovens Escribas. A homenagem a estes grandes amigos que já se foram: Sandoval Wanderley, Chico Vila, Jaime Lúcio, Lenício Queiroga, Fernando Ataíde, Carlos Nereu, todos agora fazendo teatro na Eternidade; e Luís Carlos Guimarães, Bosco Lopes, Black-Out, Celso da Silveira, sentados numa nuvem, fazendo versos…

Amigos? Impossível citar! Um ano não seria suficiente para esgotar a lista das amizades, meu maior patrimônio nesta terra.

Minha família querida:

Meu filho mais velho, Rômulo Tavares, publicitário, músico, compositor, brilhante em tudo o que faz, um homem bom e decente, com raízes plantadas aqui e que me continua através dos meus dois netos: Isabela Albuquerque Tavares, aluna do curso de Direito, e Marcelo Rodrigues Tavares, ainda adolescente. As mães dos meus netos, Viviane Albuquerque, psicóloga, e Telma Rodrigues, professora de teatro.

Minha filha Ana Morena Tavares Ramos, empresária, contrabaixista, cantora, atriz, e tudo o mais que ela quiser ser porque é talentosa e linda, e me enche de orgulho a cada dia pelo que é e pelo que faz. Junto com meu querido genro Anderson Foca ela lidera um dos empreendimentos culturais de maior sucesso nesta terra: o Combo Cultural do Sol, e movimentam a cena da cidade em eventos de porte, dois deles em parceria com a Casa da Ribeira: o Circuito Ribeira e a Virada Natal.

Ligados a mim por laços familiares indiretos, uma vez que são sogros da minha filha, o casal José Freitas/Lucidete, paraenses aqui radicados, também são minha família nesta cidade.

Ao longo dessa fala eu citei muitos nomes. Nos discursos, as pessoas sempre dizem que não vão citar nomes para não correr o risco de esquecer alguém. Mas eu não me importo. Eu quero correr esse risco, porque enquanto vou desfiando essas recordações os nomes vêm vindo à minha memória e é impossível deixar de citá-los, mesmo sabendo que não vou poder citá-los todos.

E também há aqueles que fazem parte da minha vida e que eu não sei os nomes, os natalenses anônimos, cidadãos desta cidade, a moça que me atende no caixa da loja, o gari que recolhe o lixo, o carteiro, a telefonista que está do outro lado do fio, o frentista que abastece meu carro, homens e mulheres que fazem parte da minha vida e que agora me recebem como conterrâneos e cabem todos dentro do meu coração.

O escritor Nei Leandro de Castro uma vez escreveu:

“Clotilde Tavares é a fada madrinha e a fada zangada do cotidiano. Ela protege Natal com uma varinha de condão e um porrete feito de madeira que cupim não rói.”

É como fada madrinha que me agora me dirijo, nesta casa que é do povo, aos seus representantes, os nobres vereadores que aqui fazem seu trabalho, principalmente ao vereador Hugo Manso, para agradecer esta homenagem, que para mim é como uma flor rara, que regarei com a minha gratidão, e que agora segue embelezando minha vida.

Mas também é como fada zangada do cotidiano que quero deixar aqui o meu primeiro recado como natalense legítima:

- Senhores vereadores! Tomem conta da minha cidade! Fiscalizem os governantes para ver se eles estão se comportando. Ajudem a melhorar a vida do cidadão propondo na área da saúde, da educação, da segurança, do transporte. E tratem a cultura com o respeito que ela merece, e não como diversão de final de semana. Cuidem da minha cidade! Eu estou de olho em vocês.

Minha gente!

Eu amo Natal!

Amo o deslumbramento de mergulhar nesse azul e nesse ouro que é a atmosfera da cidade. Azul do céu de brigadeiro, ouro do Sol e das acácias que ornamentam as avenidas.

Amo a carícia do vento, e o perfume do mato ali nas dunas da Via Costeira.

Amo o bulício do Alecrim no dia da feira, as agitações noturnas em Ponta Negra, os saraus nas livrarias, as conversas nos corredores dos shoppings, as lentas visitas aos sebos no centro da cidade.

Amo essa magia, esse encantamento que torna esta cidade especial entre todas as cidades do mundo. É alguma coisa imponderável, uma brisa, um sopro angélico, um murmúrio de fadas, uma sensação de dia nascendo a toda hora, quando a gente olha para este céu tão sem nuvens, tão luminoso.

Amo as dunas suaves e recortadas sobre o céu da tarde, quando as contemplo da minha varanda, relembrando a sensual anatomia dos corpos femininos.

Amo o Potengi à tardinha, recebendo o sol poente, vermelho e preguiçoso, que se aninha nos braços verdes e escuros do rio.

Amo o hospitaleiro povo natalense, agora também oficialmente meu povo, recebendo quem vem de fora com a mesa posta e a rede armada, o pirão de peixe quentinho e saboroso, o suco de mangaba, a carne de sol.

Porque em Natal quem mora aqui vive rindo à toa porque sabe que desfruta do privilégio de viver nesta esquina do continente, terra de sol, perfume e alegria.

MUITO OBRIGADA!

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Domingo de Páscoa

Clotilde Tavares | 31 de março de 2013

Neste domingo de Páscoa, tenho recebido muitas mensagens desejando Feliz Páscoa, às quais agradeço de coração. A Páscoa, como todos sabem, é uma das maiores festas da cristandade, onde se comemora a ressurreição de Cristo. Quando eu era menina, essas histórias soavam meio estranhas na minha cabeça pois a contabilidade não batia bem: se Jesus foi crucificado e morreu na sexta-feira, e ao terceiro dia ressurgiu dos mortos, como é que se comemora a ressurreição no domingo, apenas dois dias depois? Para a minha mente lógica de pequena pentelha de oito anos, algo estaria errado nessa conta, até que aprendi que nesses assuntos de religião a gente não questiona muito não, senão a freira vem e põe você de castigo. Aí, nada de ovos de chocolate.

Pois muito bem: se a festa é para comemorar a ressurreição de Cristo, mesmo considerando dois dias no lugar de três, o que isso tem a ver com ovos e coelhos? Só consegui entender isso depois de adulta, meu caro leitor, e compartilho aqui com você o que andei descobrindo.

É que a Páscoa é uma festa muito mais antiga do que Cristo, muito mais antiga do que a cristandade. Para os povos pagãos, que viveram alguns milhares de anos antes de Cristo, a Páscoa, celebrada no hemisfério norte no equinócio da Primavera – ou nas suas proximidades – celebrava as divindades ligadas à fertilidade do solo. Para estes povos, a fertilidade tinha uma grande importância porque a produção nos campos era a base da vida comunitária, que os permitia enfrentar os dias difíceis e estéreis do Inverno.

Na mitologia céltica e saxônica, por exemplo, celebrava-se nessa época a deusa Eostar, que presidia o nascimento da Primavera e o redespertar da vida na terra. Então ovos eram pintados e enterrados para que fossem encontrados depois pelas crianças, já que o ovo é sinal de uma nova vida que renasce. A lebre, que era o símbolo do renascimento e da ressurreição entre essas culturas, também era o animal sagrado dedicado a Eostar.

Quando a Igreja católica se estabeleceu como instituição, por volta do século III depois de Cristo, as festas pagãs foram cristianizadas, ou seja, sua estrutura e data foram mantidas e deslocou-se a reverência aos deuses pagãos para os fatos da vida de Cristo e dos santos. Isso aconteceu com o Natal, as festas juninas, e tantas outras. O Domingo de Páscoa ainda é determinado pelo calendário lunar, e é o primeiro domingo após a Lua Cheia que coincide ou vem em seguida ao Equinócio da Primavera. Nos países de língua inglesa a palavra Páscoa, em inglês, é Easter, palavra derivada de Eostar.

Então, estão explicados os ovos e os coelhos, e o sentimento de ressurreição, de renovação, que deve passar por todos nós nessa época, independente da religião que professemos. É bom para plantar, para mergulhar as sementes na terra, para visualizar as colheitas futuras que deverão surgir dos grãos plantados hoje.

Abençoada seja esta deusa tão gentil, que recupera do frio solo do Inverno as coloridas flores da Primavera, prometendo os frutos dourados pelo sol do Verão.

——

Eu nunca mais havia escrito nada aqui. Hoje me deu vontade. Quem sabe não me animo e volto a blogar? Pois é.

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coelho da páscoa, domingo de páscoa, equinócio, festa cristã, festa pagã, ovos de chocolate, pascoa, solsticio
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GERÚNDIOS, a série

Clotilde Tavares | 8 de setembro de 2012

ESTOU…

… BEBENDO suco sem açúcar, chá e Yakult.
… CONTANDO calorias.
… COMENDO menos do que a fome pede e mais do que preciso para perder peso.
… ESCREVENDO obsessivamente.
… CAMINHANDO e cantando e seguindo a canção.
… LENDO os 6 volumes das Crônicas Saxônicas, de Bernard Cornwell – de novo.
… OUVINDO Tulipa Ruiz e Roberta Sá.
… COMPRANDO novos lençóis, pratos, copos, toalhas.
… AJEITANDO a casa.
… PREPARANDO livro novo para ir à gráfica até final do mês.
… SENTINDO frio em Setembro, pode? Aqui em Natal?
… ADIVINHANDO chuva.
… DORMINDO profundamente.
… SONHANDO sonhos calientes.
… ESQUECENDO de tudo minutos depois.
… ACOMPANHANDO o ponteiro dos segundos, que nunca se detém.
… OLHANDO o mundo por olhos que já vão ficando turvos, afogados nas cataratas da idade.
… ACENDENDO velas para Santa Zoraide na tela do meu iPhone.
… ACREDITANDO em milagres, sempre.

"Saudades de Noronha", tela de Flávio Freitas.

 

 

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Bernard Cornwell, Cronicas Saxonicas, Flávio Freitas, Roberta Sá, Tulipa Ruiz, Yakult
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Novidades

Clotilde Tavares | 5 de setembro de 2012

Queridos amigos, companheiros, parentes, assinantes de listas, gente que me segue no Twitter ou Facebook!

Chego até você cheia de novidades, mais uma vez exercendo a duvidosa e exótica função de assessora de imprensa de mim mesma, função essa que desempenho com algum tédio e enfado uma vez que não me pagam e nem me assinam a carteira.

Nesse mundo midiático, de comunicação instantânea e velocíssima, se a criatura passa mais de uma semana fora das redes sociais pensam logo que ela morreu ou mudou-se, esquecem nome, endereço e param de convidar pras festas. É por isso que lhe submeto a essa ladainha de atualização, para provar a você, ao mundo e sobretudo a mim mesma que continuo “viva e bulindo”, como dizem lá no meu interior; ou “aprontando de montão” no dialeto litorâneo.

Isto posto, informo que:

— Passei o mês de agosto entre João Pessoa e Natal. Foram 15 dias na capital parahybana, a chamada “Cidade das Acácias”. Tudo isso indo e voltando, divididos em três viagens. Passei ainda seis dias de cama, com essa gripe famigerada que está por aí; então para Natal sobrou menos de dez dias, sem contar que as conexões de Internet nos hotéis em que fiquei hospedada na Parahyba – Village e Caiçara – estavam erráticas e inconstantes.

A cidade vista ao longe, da praia do Cabo Branco.

— Em João Pessoa cantei parabéns para minha amiga querida poeta e shakespeariana Vitória Lima (03/08), minha sobrinha Luanda Tavares (05/08) e para a maravilhosa Sophia Loureiro (18/08), no esplendor dos seus quinze anos.

— Ainda na capital da Parahyba, durante o evento Augusto das Letras promovido pela FUNJOPE falei sobre o soneto Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos. O evento foi muito bacana – de parabéns Lúcio Vilar e Carlos Aranha. Encontrei pessoas queridas na platéia da Academia Paraibana de Letras que recebeu minhas às vezes irreverentes e desataviadas palavras, além de matar as saudades dos terríveis, mal-comportados, talentosos e queridíssimos Astier Basílio e Alex de Souza.

— Até junho de 2013 estou na presidência do Rotary Club de Natal, o mais antigo do Rio Grande do Norte. Para quem não sabe, sou rotariana há doze anos, seguindo a tradição do meu pai Nilo Tavares. Isso significa que toda quinta-feira, no almoço, estou lá à frente da reunião, além de ter que dedicar tempo à administração do clube. O rotarismo é uma coisa do bem, da amizade, do companheirismo, da cordialidade, do dar-de-si-sem-pensar-em-si. Eu acho que parece comigo.

— Como se tudo isso não fosse suficiente, estou com um recital em cartaz, “TRAMAS: recital de música e poesia”, na companhia dos competentes Heliana Pinheiro, com sua voz de cristal, e Joca Costa, um dos maiores guitarristas que já vi tocar. Clique aqui para ver um trecho e fique atento para as datas das apresentações, que irei divulgando por aqui. Essas datas ainda são espaçadas, mas confio na Fama e na Fortuna, que provavelmente estão nos esperando em alguma esquina da nossa trajetória.

Só falta dizer duas coisas: a primeira é que estou bem de saúde, totalmente recuperada da cirurgia da coluna que fiz em março, cuidando da alimentação e sendo rigorosa e constante no treinamento físico que faço três vezes por semana; e a segunda coisa é que eu queria muito saber a quem emprestei os CDs com a 6ª. temporada da série The Sopranos. Emprestei, e esqueci a quem. Então, se foi a você, entre em contato.

 

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As esquinas da Avenida Brasil

Clotilde Tavares | 3 de setembro de 2012

Eu estava sábado no shopping quando um jovem aproximou-se de mim, identificou-se, e perguntou onde encontrar uma crônica que eu havia publicado há tempos no jornal. Escrevi na Tribuna do Norte/Natal-RN durante quase dez anos, de 1998 a 2007, todo domingo, e fiz uma grande legião de leitores. A prova disse é que mesmo depois de cinco anos afastada da colaboração semanal os leitores ainda se lembram de mim.

Para aqueles que não conhecem Natal, a Avenida Engenheiro Roberto Freire referida no texto é a que liga a cidade à Praia de Ponta Negra, destino turístico conhecido no Brasil inteiro. À margem dos seus poucos quilômetros situam-se bares, restaurantes, shoppings e todo tipo de empreendimento, com grande circulação de pessoas.

O título “Avenida Brasil” nada tem a ver com a novela de sucesso que a TV transmite toda noite uma vez que a tal crônica foi escrita em agosto de 2001, há exatos nove anos.

Se calou tão fundo na mente do leitor que me encontrou, por certo o tema continua interessante. Então, compartilho aqui.


 

Avenida Engenheiro Roberto Freire. Ao fundo, o Morro do Careca, cartão postal da cidade de Natal-RN

AS ESQUINAS DA AVENIDA BRASIL

(Publicada na Tribuna do Norte, em agosto de 2001).

Na criação dos filhos, uma das coisas mais interessantes são as perguntas que as crianças fazem. “Por que o céu é azul?” ou “Por que eu sou eu e não outra pessoa?” são questões que tive que responder quando meus filhos eram pequenos. Como ainda não se auto-censuram, perguntam exatamente o que querem saber, nos colocando muitas vezes em sérias dificuldades na hora das respostas.

A propósito disso é que um amigo me contou que, quando passa de carro com os filhos pela Avenida Engenheiro Roberto Freire fica sem saber o que dizer quando as crianças querem saber sobre os travestis, que são quase a marca registrada da Avenida e proliferam em cada esquina, exercendo o seu sofrido e controverso ofício. Lembrei-me então de uma matéria que saiu um dia desses nos jornais, onde algumas pessoas pediam a retirada dos travestis, por sua presença ser “ofensiva às famílias”.

Não tenho mais filhos pequenos, mas já tenho netos. E se eles viessem me perguntar o que são e o que fazem aquelas pessoas na esquina da Avenida, porque se vestem daquela maneira, descobrindo partes do corpo que habitualmente ficam ocultas, eu responderia simplesmente que são pessoas que usam o corpo como instrumento de trabalho.

Muitas pessoas trabalham com o corpo. O trabalho braçal, nas diversas atividades que exigem força física; os atores, que emprestam o corpo, o olhar, a voz e a energia para dar vida aos personagens que encarnam; os bailarinos e atletas, que domesticam sua musculatura para alcançar performances invejáveis; e também os chamados “trabalhadores do sexo”. Eu explicaria aos meus netos que estes últimos alugam temporariamente os seus corpos a outras pessoas, de comum acordo entre as partes, para que elas possam satisfazer desejos e fantasias, numa atividade que não me cabe julgar se é certa ou errada pois não sou dona da verdade.

Explicaria aos meus netos que aquelas pessoas que estão nas esquinas da Avenida só estão ali exercendo aquela atividade difícil e perigosa porque existe quem pague por isso, e que muitas vezes esses que pagam são os mesmos que, em outro momento, se dizem ofendidos com o ofício ali exercido. Quanto às roupas que usam, os trejeitos que fazem e a exibição de partes do corpo não iria precisar explicar nada pois meus netos já devem estar fartos de ver coisa igual ou pior todo dia na TV. Aliás, as coisas na televisão são tão bizarras que às vezes fazem os rapazes das esquinas da Avenida parecerem anjinhos de procissão.

Diria ainda aos meus netos que aqueles rapazes da esquina da Avenida são, antes de qualquer coisa, seres humanos com sonhos, emoções, planos e desejos como qualquer um de nós, e que se estão ali é porque não tiveram as mesmas oportunidades que eles, os meus netos, estão tendo.

Explicaria finalmente que o verdadeiro crime não é vender ou alugar o corpo, mas vender a alma, a consciência e a vergonha na cara.

E digo mais, caro leitor, a você, aos meus netos e a quem interessar possa: não troco um só dos rapazes da esquina da Avenida por uma centena desses figurões venais, corruptos e desonestos que empesteiam e denigrem não só a família mas a totalidade da nação brasileira.

Esses sim é que, a bem da moral e da decência, deveriam ser retirados das esquinas da grande Avenida chamada Brasil.

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Também quero ser fera

Clotilde Tavares | 29 de agosto de 2012

Também quero ser fera: reflexões sobre o soneto Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos

por Clotilde Tavares

Comunicação apresentada em 29 de agosto de 2012, na Academia Paraibana de Letras, durante o evento Augusto das Letras, em João Pessoa, Paraíba.


A poesia de Augusto dos Anos me veio pela primeira vez na voz rouca e poderosa do meu pai, o jornalista e poeta Nilo Tavares. Eu devia ter uns doze ou treze anos, e nas noites sem televisão de uma Campina Grande que hoje só existe na minha memória, os versos de Augusto se elevavam no ar, aos meus ouvidos maravilhados.

Parece que ainda estou ouvindo a voz de papai:

“Sou uma Sombra! Venho de outras eras,

Do cosmopolitismo das moneras…

Pólipo de recônditas reentrâncias,

Larva de caos telúrico, procedo

Da escuridão do cósmico segredo,

Da substância de todas as substâncias!

E logo mais na frente, quando ele dizia a estrofe que terminava assim:

Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques

E o animal inferior que urra nos bosques

É com certeza o meu irmão mais velho!

…todos ríamos porque sabíamos que Papai intencionalmente, dizia isso com ênfase para irritar meu tio Stelio, o irmão mais velho dele.

Papai sabia Augusto quase todo decorado e rapidamente eu também comecei a aprender os sonetos.

A poesia de Augusto dos Anjos sempre me deixou arrebatada pela linguagem complexa, que aos meus ouvidos adolescentes soava cheia de mistérios, como se fosse uma carta enigmática, um código a ser decifrado, um logogrifo estranho e misterioso cuja chave estaria em algum lugar do trajeto que os versos faziam a se espalharem pelo espaço, em sonoridade, em ritmos e rimas geniais.

A impressão que eu tinha era que aquele som atuava sobre mim como um alucinógeno, um gatilho para estados ampliados de consciência, um canto gregoriano que ia a qualquer momento me revelar a face de Deus, muito embora talvez eu não conseguisse apreender o sentido do que estava ouvindo.

Augusto dos Anjos sempre me pareceu um cara que vislumbrou o infinito e, voltando, tenta contar a história, muito embora muitas vezes a idéia lhe saia truncada pelo “molambo da língua paralítica”.

Lembro-me de outra leitura dessa época adolescente – Edgar Allan Poe, muito parecido com Augusto dos Anjos, na evocação do clima gótico, sombrio, dark. A Queda da Casa de Usher é um texto poético que bem poderia ter sido escrito por Augusto.

Mais do que a linguagem, a melodia e o ritmo que emanam dessa poesia, o entontecimento que nos acomete quando nos debruçamos à beira desse despenhadeiro, o chamado hipnótico das profundezas que entrevemos ou entreimaginamos quando ouvimos, por exemplo

Tome, Dr., esta tesoura, e… corte

Minha singularíssima pessoa.

Que importa a mim que a bicharia roa

Todo o meu coração, depois da morte?!

 

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!

Também, das diatomáceas da lagoa

A criptógama cápsula se esbroa

Ao contato de bronca destra forte!

 

Dissolva-se, portanto, minha vida

Igualmente a uma célula caída

Na aberração de um óvulo infecundo;

 

Mas o agregado abstrato das saudades

Fique batendo nas perpétuas grades

Do último verso que eu fizer no mundo!

 

É assim que vejo a poesia de Augusto dos Anjos. Não são as palavras. É a energia que essas palavras produzem quando pronunciadas. É a perturbação que elas provocam na sopa quântica da qual fazemos parte, gerando ondas de choque que elevam essa energia a níveis tsunamicos, lançando a nossa mente numa espécie de espiral arco-voltaica, brilhante e relampejante, de nível em nível, até alturas inimagináveis, enquanto se sucedem os alucinantes decassílabos, edificando uma construção poética estranha e portentosa.

Eu, filho do carbono e do amoníaco,

Monstro de escuridão e rutilância,

Sofro, desde a epigênesis da infância,

A influência má dos signos do zodíaco.

 

Profundíssimamente hipocondríaco,

Este ambiente me causa repugnância…

Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia

Que se escapa da boca de um cardíaco.

 

Já o verme — este operário das ruínas —

Que o sangue podre das carnificinas

Come, e à vida em geral declara guerra,

 

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,

E há-de deixar-me apenas os cabelos,

Na frialdade inorgânica da terra!

 

Os termos exercem um fascínio sobre a percepção que se assemelha à empolgação do sexo, que vai num crescendo, sem se resolver, em busca de um clímax que sempre é trazido pela chave de ouro do soneto.

São como orgasmos líricos, uns mais intensos, outros menos intensos, como na vida; e orgasmos múltiplos, um se sobrepondo ao outro, também como na vida, nos poemas mais longos, como no Monólogo de Uma Sombra, do qual já disse trechos.

Experimentem esse soneto, e vejam este crescendo do qual estou falando.

Podre meu Pai! A Morte o olhar lhe vidra.

Em seus lábios que os meus lábios osculam

Micro-organismos fúnebres pululam

Numa fermentação gorda de cidra.

 

Duras leis as que os homens e a hórrida hidra

A uma só lei biológica vinculam,

E a marcha das moléculas regulam,

Com a invariabilidade da clepsidra!…

 

Podre meu Pai! E a mão que enchi de beijos

Roída toda de bichos, como os queijos

Sobre a mesa de orgíacos festins!…

 

Amo meu Pai na atômica desordem

Entre as bocas necrófagas que o mordem

E a terra infecta que lhe cobre os rins!

 

Mas… e os Versos Íntimos?

Há uns dez anos, dando um curso de teatro para jovens, em Monteiro, no Cariri paraibano, e onde havia jovens de outros municípios, daquele entorno, perguntei:

- Quem sabe decorado os Versos Íntimos, de Augusto dos Anjos?

Mais da metade sabia.

Eram jovens, eram de teatro, eram paraibanos – sabiam!

Por que sabiam? Porque os Versos Íntimos estão impressos no DNA cultural de quem nasceu na Paraíba.

Eu aprendi Augusto com Papai, mas há toda uma geração de paraibanos que aprenderam Augusto com o poeta Ronaldo Cunha Lima, nos dois famosos programas de perguntas e respostas que o poeta fez, o primeiro na TV Tupi e o segundo na Rede Manchete, na década de 1970.

Transmitidos para todo o Brasil, em rede nacional de televisão, o programa e a performance de Ronaldo, que respondia às questões em versos, gerou curiosidade sobre a obra de Augusto e a divulgou mais do que qualquer programa de governo.

Posso afirmar que a geração nascida a partir dos anos 1960 teve esse contato precoce e intenso com Augusto dos Anjos, que passou a fazer parte do imaginário de toda uma geração esse crédito é inegavelmente do poeta Ronaldo.

Voltando ao curso de teatro: então eu escolhi um dos meninos e pedi para recitar.

Ele ergueu a mão, no gesto clássico dramático, de quem vai recitar com pompa e circunstância, e empostando a voz detonou o primeiro quarteto.

Vês! Ninguém assistiu ao formidável

Enterro de tua última quimera.

Somente a Ingratidão – esta pantera -

Foi tua companheira inseparável!

 

Aí eu interrompi e perguntei:

- Ok, meu filho. Agora me diga: o que quer dizer isso?

E ele, com o encanto e a petulância de quem tem 17 anos respondeu:

- Ah, professora, não sei não. Mas é lindo, não é?

Preciso dizer mais alguma coisa?

Quem é que ouve ou lê Augusto dos Anjos e não fica doido por ele? Quem não se deixa seduzir e encantar por essa linguagem?

Mas os Versos Íntimos fogem um pouco da chamada linguagem ornamentada tão freqüente na obra do poeta. Tirando um formidável aqui e um inevitável acolá – e também a quimera, palavra antiga e que hoje muita gente não conhece – todas as palavras são de uso corrente e facilmente compreensíveis pelo leitor médio. O segredo desse poema está na força das imagens evocadas.

Os Versos Íntimos é como se o poeta visionário resolvesse dar um conselho pra todo mundo entender.

É um poema que em vez de contar, como por exemplo: “No tempo do meu pai…” ou “A minha ama de leite Guilhermina…”, mostra. É aí que reside a sua profunda força teatral que o afasta do tom épico dos poemas visionários. Enquanto a maioria dos poemas é referente ao eu, nos Versos Íntimos ele aconselha, incita, amedronta, ameaça o outro.

Os verbos são todos num tempo imperativo: Vês? Acostuma-te. Toma um fósforo. Apedreja. Escarra.

É uma peça poética de profunda solidão, onde o homem, após ver enterrado o seu último sonho, tem como companhia apenas a Ingratidão, a pior coisa que pode acontecer a uma pessoa.

No interior, as pessoas dizem: “Não tenho medo da morte, tenho medo da Ingratidão.” – esta pantera, por certo parenta próxima dessa outra criatura felina, a Onça Caetana, que está aí rondando, nos esperando a todos, para rasgar nossas carnes com suas garras. Pois a Ingratidão, essa pantera, é pior, muito pior do que a Caetana.

Hoje em dia, ao caminhar na rua e conviver com os meus às vezes dessemelhantes em shoppings, cinemas, supermercados e seja lá onde for que a vida me leve a esse contato, assombrada com a vulgaridade, a cafajestice, a falta de educação e de noção, não posso deixar de recitar mentalmente o segundo quarteto, pensando que é isso mesmo, que aquilo que me espera é mesmo a lama da deterioração dos costumes, que preciso me acostumar a isso, que estou cercada de feras e de repente me dá uma vontade também de jogar para o alto meus hábitos e ultrapasssar pela direita, ligar bem alto o paredão de som, furar a fila, andar de salto alto no apartamento infernizando o vizinho de baixo, estacionar na vaga de deficientes, finalmente me rendendo, uma vez que vivo entre feras, a essa inevitável necessidade de também ser fera.

O “toma um fósforo, acende teu cigarro”, é o nosso “ser ou não ser, eis a questão”. Fui fumante muito tempo da minha vida e vez por outra, ao pedir a alguém para que acendesse o meu cigarro, nas noites sem horário dos bares da vida, lá vinha a criatura com a frase. E se eu fosse professora do ensino médio diria aos meus alunos que esse fósforo é uma imagem de luz, que o poeta usa para ajudar o seu interlocutor a compreender que “o beijo é a véspera do escarro e a mão que afaga é a mesma que apedreja.” Ou, quem sabe, o poeta não estava pensando nisso, apenas considerou a frase uma boa solução para rimar com escarro?

E chegamos ao segundo terceto. Qual é o soneto da língua portuguesa que tem como chave de ouro um “escarra nesta boca que te beija”?

Lembro de Ferreira Gullar a causar repulsa nas platéias com o poema A Bomba Suja, que começava assim:

“… introduzo na poesia / a palavra diarréia…”

 

Declamei uma vez esse poema em um evento, e foi curioso de ver a repulsa involuntária do auditório ao ouvir a frase. As expressões de asco e de nojo estavam estampadas nas faces das pessoas, elas recuavam, quase sem se sentir.

Mas décadas antes Augusto dos Anjos já havia escarrado nesta boca que te beija e se o décimo quarto verso do soneto hoje talvez não tenha mais esse efeito, é porque, de tão conhecido e repetido, já foi diluído o poder de choque da frase. Mas imaginem o que isso causou nas primeiras leituras e o que ainda causa quando alguém, por certo um não-paraibano – o escuta pela primeira vez.

Finalmente, toda a poesia de Augusto dos Anjos é de grande apelo ao recitativo, sonora, fácil, boa de recitar. Há autores que se prestam mais à leitura, do que ao recitativo, mas a poesia de Augusto é um presente para atores e declamadores.

E o mais curioso – e isso observo sempre que estou recitando Augusto frente a uma platéia é que quando passeio os olhos pelo publico sempre há alguém movendo os lábios, falando, recitando junto, acompanhando as os versos arrebatadores, recitando comigo.

Não quis aqui fazer uma análise profunda da poética de Augusto ou do soneto Versos Íntimos. Se você colocar no Google as palavras “versos íntimos analise”, o mecanismo de busca vai lhe fornecer cerca de 65.000 resultados, desde análises extremamente enriquecedoras e detalhadas de professores, literatos e intelectuais de nome até trabalhos escolares de crianças de treze anos, porque hoje em dia tudo que se escreve se publica na Internet.

No YouTube encontrei 155 videos diferentes de pessoas recitando o poema, de todas as formas que você puder imaginar. Eu mesma recito o poema no meu espetáculo TRAMAS, um recital de música e poesia que em breve estarei trazendo à capirttal paraibana. O que acrescentar, então, a tudo que já foi escrito, dito, imaginado sobre a obra do poeta?

Preferi falar como o coração sobre o poema e a poesia de Augusto.

Falar sobre como essa poesia me chegou, como me formou, como se entranhou na minha mente, na minha formação poética, na minha percepção estética da poesia em geral e do mundo ao meu redor. Falar sobre como essa poesia ainda me emociona e me bate depois de 50 anos recitando e repetindo esses sonetos.

Fica então aqui esta fala, mais depoimento do que critica ou analise literária, um discurso mais afetivo e emocional do que analítico, ou acadêmico. Depois que me aposentei da cátedra universitária fiquei assim meio iconoclasta, procurando abordagens mais espontâneas e inusitadas dos temas, cansada dos rigores do método.

Como diria o próprio Augusto, neste clip que fiz do poema As Cismas do Destino:

“Homem! por mais que a Ideia desintegres,

Nessas perquisições que não têm pausa,

jamais, magro homem, saberás a causa

De todos os fenômenos alegres!

(…)

Por descobrir tudo isso, embalde cansas!

Ignoto é o gérmen dessa força ativa

Que engendra, em cada célula passiva,

A heterogeneidade das mudanças!

(…)

Ah! Por mais que, com o espírito, trabalhes

A perfeição dos seres existentes,

Hás de mostrar a cárie dos teus dentes

Na anatomia horrenda dos detalhes!

(…)

Um dia comparado com um milênio

Seja, pois, o teu último Evangelho…

É a evolução do novo para o velho

E do homogêneo para o heterogêneo!

 

Adeus! Fica-te aí, com o abdômen largo

A apodrecer!. .. És poeira, e embalde vibras!

O corvo que comer as tuas fibras

Há de achar nelas um sabor amargo!

 

 

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R & J de Shakespeare – Juventude Interrompida

Clotilde Tavares | 7 de maio de 2012

Sempre fico com um pé atrás quando saio de casa para ver qualquer espetáculo baseado em William Shakespeare. Isso porque a maioria dos encenadores nunca se contenta em apresentar o texto original, e somos obrigados a presenciar tentativas de tornar o texto mais “acessível”, mutilando a poesia, nivelando por baixo a linguagem, substituindo as belas e raras palavras pelo seu sinônimo mais corriqueiro, ou então “brincando” – no mau sentido – com o texto, recheando-o de palavras e situações obscenas, na velha postura adolescente de debochar daquilo que não se compreende. Também há outras formas de picotar, cortar, detonar e estraçalhar o texto a serviço de propostas de encenação esteticamente bizarras, e muitas experiências desse tipo recebem a aprovação de uma vertente modernosa da crítica, sendo esse aval tanto mais efetivo quanto mais esquisita for a montagem. A fragmentação do texto, sob a justificativa de se extrair dele “novos” e “ocultos” significados, principalmente se o texto for shakespeareano, tem sido um esporte praticado com energia e aplicação. Todas essas reflexões me fazem ir a uma montagem de W.Shakespeare com sentimentos que oscilam entre o terror e o tédio.

Para mim, nada substitui a força e a poesia do texto shakespeareano. Tenho provado ao longo dos meus anos com professora que qualquer adolescente de 16 anos pode não só compreender esse texto como retirar dele muito prazer estético. É uma sensação maravilhosa quando vejo um aluno descobrir que “o túmido astro que ergue o império de Netuno” é a Lua, e com essa compreensão, que passa primeiro pelo aprendizado de uma palavra nova, não-comum, “túmido”, depois por entender a influência da Lua sobre as marés, coisa que muitos não sabem, e finalmente quem é Netuno, e o que é a mitologia grega. Além de tudo isso, a viagem pela “linguagem ornamentada” usada por W.S. suscitou uma vez um diálogo interessante entre dois alunos a respeito da frase acima. Um deles perguntou: – “E por que ele não diz ‘a Lua’ logo de uma vez?” O outro, que estava ao lado, logo retrucou: – “Ô idiota, é a mesma coisa que o pavão deixar de ser colorido para ser em preto e branco!”

Pois é.

Então, quando fui ver “R & J de Shakespeare – Juventude Interrompida”, um texto do norte-americano Joe Calarco com direção de João Fonseca, na noite de 5 de maio de 2012 no Barracão Clowns, aqui em Natal, onde moro, fui preparada para tudo e nem li o programa entregue antes do espetáculo. Eu sabia apenas que eram quatro rapazes, que a montagem tinha vários prêmios e indicações, e só.

Mas foi tudo lindo, meu caro leitor. O que vi naquela noite foi uma prova de que é possível respeitar o texto e a dramaturgia shakespeariana e ao mesmo tempo envolver a platéia, formada quase que somente de jovens entre os 16 e 30. Havia ali umas cem pessoas, e somente eu da minha idade – mais de 60. Uma ou outra pessoa que aparentava ter mais de 35 anos e o resto eram jovens mesmo, universitários, gente de teatro, garotada.

O espetáculo funciona, e penso que funciona por vários fatores, reunidos pela competente direção. Tanto eu fiquei encantada quanto a jovem que, sentada à minha frente, recostava a cabeça do ombro do namorado. Provavelmente nos encantamos por motivos diferentes mas é esse o segredo de uma boa encenação, que tem a capacidade de levantar o véu que separa a nossa realidade comum e cotidiana daquele mundo inconsciente, estranho, caótico e desconhecido que temos dentro de nós. Todos viajam, cada um à sua maneira.

“R & J” se inicia propondo um nível duplo de representação ou de metamorfose: atores que fazem o papel de estudantes de um colégio católico que por sua vez fazem o papel dos personagens shakespearianos. Aqui e acolá, ao longo do espetáculo, eles voltam aos “alunos” com intervenções rápidas, bem humoradas mas rapidamente retornam a Romeu, Julieta, a Ama, Frei Lourenço. Esse texto sempre me arrebata quando é dito da forma como o foi, com verdade e fiel ao que foi escrito há mais de 400 anos. Os momentos onde os estudantes voltam a si mesmos também são dotados de um encanto, um frescor, uma juventude, uma beleza, qualidades que a peça pede, exige, e que não se encontra em todo tipo de ator. Mas são lindos, esses rapazes! São jovens, são suaves, são fortes, são saudáveis, são inteiros, “intocados pela tragédia”, como o eram Romeu e Julieta ao se conhecerem e experimentarem o amor.

Mas somente a beleza, a força, a juventude, não são suficientes para garantir um bom momento teatral. Esses rapazes são, principalmente, bons atores, bem preparados, com prontidão, vigor físico e fé cênica. Uma das coisas boas do espetáculo é a precisão, o cuidado com os detalhes, a movimentação perfeita, o bom-acabamento. Isso mostra ensaio, ralação, trampo, seriedade, compromisso, dedicação. Pablo Sanabio (como Frei Lourenço, Ama e outros) e Geraldo Rodrigues (como Julieta) estavam irrepreensíveis. O primeiro, nos papéis da Ama e de Frei Lourenço foi a melhor presença em cena, mas não de uma forma que desequilibrasse o conjunto – o que é bom. O segundo consegue o milagre de nos revelar Julieta sem apelar para a caricatura ou o travestismo. No entanto, tive dificuldade para entender o que dizia Felipe Lima (Pai de Julieta e outros) e quanto a João Gabriel Vasconcellos (Romeu) – como é bonito, esse rapaz! – foi um Romeu perfeito, embora nos minutos finais da peça – só nos minutos finais! – tenha ficado um pouco sem voz e cansado. Talvez não estivesse em uma noite boa. Acontece.

Muito competente a cenografia, usando elementos do ambiente escolar – carteiras, giz quadro-negro, papel A4, clipes (os brincos da ama, achado genial!) – aliada ao figurino: ternos e sapatos macios, o paletó usado de várias formas – saia, manto, pelo avesso – funcionou muito bem. E ficou tudo redondo, junto com a luz, a música e os efeitos sonoros. No Barracão Clowns estávamos em um arranjo rigorosamente elisabetano, com platéia dos três lados e uma profundidade maior do palco no quarto lado. Não sei se é essa a proposta real de distribuição do espaço cênico que eles usam em outros locais mas fiquei curiosa de ver como seria essa peça em um teatro de arquitetura convencional, com platéia frontal.

E como é bom desfrutar do encanto do texto de W.S. da forma como foi escrito, com todas aquelas metáforas espetaculares, as imagens poéticas, as palavras tão eternas e tão permanentes e ao mesmo tempo parecendo terem sido inventadas na hora pela verdade como são ditas! Na cena do balcão, como é sutil e delicada a forma de emissão do texto de João Gabriel Vasconcellos (Romeu) mas que nada seria sem a expressão amorosa do rosto e o olhar apaixonado que o personagem dedica à sua dama, no balcão, banhada pelo luar!

O que dizer mais? Somente que me agrada muito ver que ainda há espaço para a poesia em seu estado mais luminoso, despida de experimentalismos cênicos que a descaracterizam. Que a poesia ainda continua sendo capaz de arrebatar a mente e o coração de uma geração bombardeada a todo instante pelas vulgaridades de um milhão de views que lotam o Youtube. Que acreditar no amor ainda vale a pena. Que William Shakespeare continua imortal e tão moderno quanto eterno. Que o teatro continua vivo. E que, enquanto houver vida no teatro, a vida pode ser possível.

Veja outros posts deste blog que falam sobre William Shakespeare clicando na tag correspondente na coluna da direita.

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Deífilo Gurgel (1926-2012)

Clotilde Tavares | 1 de fevereiro de 2012

Aqui neste blog fica minha homenagem ao professor Deífilo Gurgel, que nos deixou hoje. Em 2003, eu publicava na Tribuna do Norte o texto abaixo. Deífilo foi importante na minha vida de muitas maneiras, mais do que posso relatar aqui, pois a emoção e a dor não me deixam escrever direito.

Minha eterna saudade.

UPDATE 02/02/2012 às 9:37 - Ao acordar e ver os jornais, soube que o prof. Deífilo encontra-se na UTI, em estado gravíssimo, respirando por aparelhos, e que a notícia de sua morte – transmitida a mim por um telefonema do seu filho Carlos Gurgel, que me ligou chorando copiosamente – foi devida a um desencontro de informações. Resta a nós orar por ele e a mim pedir desculpas ao leitores e à família pelo erro involuntário que cometi.

UPDATE 06/02/2012 às 19:30 – Vi há pouco no noticiário que o prof. Deífilo Gurgel faleceu hoje por volta do meio-dia. Depois de tudo que já foi dito aqui, quase nada me resta, a não ser desejar paz e conformação à família e reafirmar minha saudade e a gratidão por tudo que aprendi com ele.




Por que Deífilo Gurgel?

No mais recente número da Revista Preá, ao ser entrevistada para a coluna 13 x 1, pediram-me que citasse uma “personalidade cultural do Rio Grande do Norte”. Não precisei pensar muito, e citei o nome de Deífilo Gurgel.

Mas quem é Deífilo? Se o meu caro leitor não sabe, informo-lhe que o pesquisador e folclorista Deífilo Gurgel é filho de Areia Branca, mas adotou Natal como moradia há mais de cinqüenta anos. Estudioso e entusiasta do folclore potiguar, vem trilhando os caminhos abertos por Câmara Cascudo, tendo sido professor da Disciplina de Folclore Brasileiro da UFRN até aposentar-se, no início dos anos 90. Além de folclorista é poeta e ensaísta, tendo publicado inúmeros livros, entre os quais se destaca “Espaço e Tempo do Folclore Potiguar”, uma obra fundamental para conhecer a cultura do nosso povo e que ainda espera uma edição mais bem cuidada, à altura da importância do conteúdo.

Deífilo Gurgel é irmão do escritor Tarcísio Gurgel, pai do poeta Carlos Gurgel e do artista plástico Fernando Gurgel, além de outros sete filhos, belos e talentosos. Junto com Zoraide, sua esposa, protagoniza uma história de amor que já dura décadas e que parece ter fôlego para estender-se até a Eternidade.

Mas, o que torna este homem uma personalidade cultural maior neste estado? O que faz brilhar sua luz acima de todas as outras? Para mim, o que distingue Deífilo Gurgel entre os inúmeros homens cultos deste estado, todos eles produtores de obras importantes para a nossa vida cultural, é a sua postura de intelectual sinceramente comprometido com o exercício e a prática da busca do conhecimento. É a abnegação quase franciscana com que se dedica aos estudos da cultura popular, empregando na maioria das vezes seus próprios recursos, pagando para produzir conhecimento, tirando do orçamento doméstico para financiar viagens, para comprar fitas para o gravador e muitas vezes ajudando financeiramente os artistas que o descaso da sociedade deixa muitas vezes morrer à míngua. É a simplicidade que ele professa como traço principal de caráter numa terra de culturas ocas, de falsas competências, de reputações construídas sobre o vazio. É a boa vontade que manifesta em auxiliar aqueles que o procuram com dúvidas sobre os temas que estuda, nunca sonegando informações, nunca exercendo qualquer monopólio sobre o conhecimento. É Deífilo Gurgel, o homem afável, bondoso, simpático, alegre. É a inocência marota com que nos conta a história do “cabelinho crespo”, mais uma colhida dentro da sua pesquisa sobre os contos do “demônio logrado”.

Por isso o admiro, e quero hoje com você, meu caro leitor, dividir e proclamar essa admiração. Ao ler minha entrevista na Revista Preá, ele me mandou uma carta, onde se diz envaidecido pela indicação e conclui com uma frase que deixo aqui, concluindo este elogio público, para que você possa alcançar o grau de simplicidade que ele mostra em tudo o que faz, e que o torna único entre todos.

Diz Deífilo Gurgel: “Clotilde, aceito sua homenagem, mas peço licença para dividi-la com todos aqueles que, na distância dos humildes povoados, esquecidos da civilização, preservam na memória privilegiada os tesouros fabulosos de uma cultura que o Brasil insiste em ignorar. Estes, sim, no silêncio do seu anonimato são, para mim, as grandes personalidades da cultura brasileira e norte-rio-grandense.”

É por isso que admiro e louvo Deífilo Gurgel.

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Os sete pecados capitais

Clotilde Tavares | 2 de janeiro de 2012

Hyeronimus Bosch e sua representação dos sete pecados capitais.

Eu nunca tinha lido A Divina Comédia. Já li A Ilíada, A Odisséia, e Os Lusíadas, mas A Divina Comédia nunca. Aí me acontece que por força do ofício e da amizade, aceitei a incumbência de ler um trabalho de um amigo meu justamente sobre A Divina Comédia, com o objetivo de ver se o tal trabalho estava legal, se atendia às normas acadêmicas, essas coisas. Prudentemente, resolvi ler antes a obra, para não incorrer em nenhuma aberração conceitual ou estética, comprometendo assim a minha fama de pessoa culta e bem informada.

Li e achei um barato, mas fiquei muito impressionada com o Inferno. Nunca pensei que tivesse tanto pecado diferente no mundo. Todos os meus terrores de criança interna em colégio de freiras voltaram e eu passei bem umas duas noites sem dormir. E comecei a pensar nessa história de pecado.

No internato, no colégio das freiras, aprendi que existem dois tipos de pecado: os veniais e os mortais. Os veniais são pecadinhos bestas, como estirar a língua quando a professora está de costas ou tomar a cocada da mão do irmão menor. Os pecados mortais não. Esses são perigosos. São aqueles que levam você diretinho para o Inferno, que nos meus pavores de criança era pior, muito pior do que o Inferno de Dante. Hoje não acredito mais em Inferno. Mas acredito nos pecados. Nos pecados mortais. Naqueles que a Igreja chamou de pecados capitais.

Para quem não se lembra mais, os Pecados Capitais são sete. Desses sete, quatro são aqueles que se cometem contra o Espírito e que prejudicam tanto quem os comete quanto a pessoa contra a qual são cometidos. São a Ira, a Cobiça, a Inveja e o Orgulho. E desses, meu filho, Deus me livre. São uns pecados tão feios, tão cabeludos que eu acho que deveria existir mesmo Inferno para trancafiar de vez lá dentro todo mundo que fizesse esse tipo de coisa.

Mas os outros três, ah, meu caro leitor, os outros três são os pecados mais geniais e mais gostosos do mundo. São os pecados que se comete contra o Corpo e, se ofendem alguém, ofendem somente quem os comete. Seu efeito maléfico não se estende a outras pessoas. São a Preguiça, a Gula e a Luxúria.

E eu vou fazer o quê, pobre pecadora que sou dos pecados do corpo? Como o gato Garfield, sou deliciosamente preguiçosa, refinadamente gulosa e gostosamente narcisista, sendo o narcisismo a forma mais elaborada de Luxúria que pode existir.

Fazer o quê? Penitência? Ato de contrição? Ou será que o Inferno me espera, o de Dante e o outro, com seus abismos de fogo e lava prontos para me devorar? O que vocês acham?

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Deixe de pantim!

Clotilde Tavares | 27 de dezembro de 2011

Um dia desses, discutia-se numa das listas que freqüento na Internet sobre o significado das palavras “pantim” e “muganga”. Bráulio Tavares escreveu sobre isso um dia desses no seu blog.

x

Papai e Mamãe

Eu passei minha infância ouvindo as duas palavras, incorporadas no rico dialeto caririzeiro-paraibano que Mamãe falava.

Pantim é difícil de definir. É quando você faz algo para “distrair o inimigo”, ou seja, quando negaceia, disfarça, enrola… Ou quando você falsifica uma ação para obter algo que não quer explicar diretamente. Já muganga é trejeito facial ou corporal, careta.

Voltando ao “pantim”, o diálogo abaixo, travado entre meus pais numa noite, explica melhor:

- Nilo, onde tu tava até uma hora dessa? – Mamãe, direta e nada sutil, atacava com a pergunta.

- Mas minha filha, é somente uma da manhã.

- Sim, mas onde tu tava?

- Você sabe Fulano? – começava papai. – Presidente da Associação Comercial? Pois eu encontrei com ele ontem…

- Não tou falando de ontem, mas de hoje. Onde é que tu tava?

- Espere, eu preciso lhe explicar. Você sabe que em Campina, desde que o prefeito mudou, que todos esses órgãos, como a Associação Comercial, a Federação das Indústrias, a…

Era aí que mamãe interrompia, já impaciente:

- “Ômi”, deixa de pantim e diz logo onde é que tu tava até uma hora dessa!

(…)

Postei esse diálogo na lista para exemplificar o que era o tal do pantim. Aí Leo Sodré, participante da lista, escreveu:

- Mas, onde Nilo estava mesmo? É bem capaz de ter levado Omega nessa farrinha…” (Omega era o avô de Leo, amigo de Papai).

Eu escrevi:

- Nilo devia estar com Omega no cabaré de Zefa Tributino, ou na Unidade Moreninha. Os dois assinavam ponto num ou noutro lugar toda noite.” (As referências são à vida noturna de Campina Grande na década de 1950/60)

Aí Bob Motta, que é poeta, escreveu:

Nilo tava c’á bixiga, (A)
e se sintindo no céu. (B)
Lhe juro, Crotilde, amiga, (A)
foi de beréu in beréu. (B)
Teve lá no Canaríin, (C)
dispôi saiu de finíin, (C)
mode qui num tava só; (X)
duis putêro de Campina, (D)
visitô os das Bunina, (D)
da Prata e Bodocongó… (X)

O poeta Bob Motta.

(Veja o esquema de rimas: o 1º verso rima com o 3º; — o 2º com o 4º; — o 5º com o 6º; — o 7º com o 10º; — e o 8º com o 9º. A estrofe é uma décima que comporta variados esquemas de rima, sendo este citado apenas um deles. A métrica é sete sílabas, redondilha maior, que você reproduz pronunciando em voz alta as palavras “ma-ra-cá, ma-ra-ca-tu”. Além disso, Bob Motta usa a chamada “linguagem matuta”, que consiste em um “português estropiado” – que não é usada nem pelo cantador de viola, nem pelo autor de folhetos de cordel e nem por mim, que procuramos usar sempre o português correto, mas é característica da chamada “poesia matuta”, cujo principal representante foi o poeta Catulo da Paixão Cearense. Forneço essa explicação para que as pessoas entendam como é complexa e rica a arte da poesia popular nordestina.)

Eu, que não deixo verso sem resposta, respondi seguindo o mesmo esquema, mas no calor do improviso deixei escapar a rima da terceira linha.

Nilo não tava sozinho
Na rota da sacanagem
Com o seu amigo Omega
Em total camaradagem
Lá em Zefa Tributino
Beberam uísque do fino
Com Paraguaíta e Nina
E com Chiquinha Dezoito
Pintaram o sete e o oito
Nos cabarés de Campina…

Bob Motta escreveu, repondendo:

Nilo tava de zonzêra,
lá na Ìndios Carirís,
bebeu quage a noite intêra,
no Canaríin, pidiu bis.
Na Unidade Moreninha,
lá nais Bunina intêrinha,
o peste num tava só;
tava prá lá de intêro,
foi in tudo qui é putêro,
da Prata e Bodocongó…

Aí eu fechei:

E quando chegou em casa
Mais pra lá do que pra cá,
Cleuza já tava na brasa
E começou o fuá:
Neguinho, conte direito!
Me conte de todo jeito,
Eu lhe peço mesmo assim!
Onde tu tava, maldito?
Tu acha isso bonito?
Ômi, deixe de pantim!


Este post é dedicado à pesquisadora Maria Alice Amorim, minha especial amiga, cujo trabalho sobre poesia popular está merecendo um post especial somente para ela, coisa que venho devendo há meses.


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