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Você cumpre seus horários?

Clotilde Tavares | 30 de novembro de 2009

Pense assim: se você fosse ganhar dez centavos por cada hora que já passou esperando por alguém que estava atrasado, você seria quase milionário, não é? Eu, com certeza, seria.

Vivemos numa sociedade – pelo menos no Brasil, que é onde eu vivo – onde é praxe não se respeitar horário. “Ninguém chega na hora mesmo”, dizemos, e saímos calmamente com 10, 15, 30 minutos de atraso para os nossos compromissos. Chagamos ao ponto de reclamar quando as coisas começam na hora, como vi uma vez, num seminário que fiz em Natal. A programação incluía um show de encerramento de nada mais nada menos que os Titãs, um show fechado somente para os participantes, marcado para as 21h30. Na saída do show, às 22h45 mais ou menos, havia pessoas revoltadas pois haviam chegado há pouco e o show já havia terminado. Acostumadas com os espetaculares atrasos desse tipo de evento, chegaram uma hora depois.

No tempo em que eu gostava de fazer festas - década de 1980, época das grandes festas na minha casa da rua da Saudade - eu marcava o fuzuê para as nove da noite mas as pessoas só começavam a chegar à meia-noite; se eu marcasse para a meia-noite, chegavam às três da manhã, para espanto de estrangeiros que eventualmente estavam entre os convidados e que chegavam na hora certa. Lá ficava eu, entretendo esse povo até a multidão chegar, com três horas de atraso.

Os alunos chegam atrasados nas aulas - e o professor também (na UFRN, onde ensinei por quase 30 anos, era assim). A faxineira, o jardineiro, o pedreiro, ninguém chega na hora e nós, como ficamos esperando por eles para poder sair, nos atrasamos também, gerando um efeito em cascata difícil de controlar.

O pessoal que vem dar assistência técnica à TV por assinatura ou à máquina de lavar marca o dia, mas não marca a hora. E se dizem que estão vindo no “primeiro horário” – esta entidade abstrata que pode ser qualquer coisa – pode ter a certeza de que chegarão às cinco e meia da tarde, quando você já perdeu o dia inteiro esperando por eles.

No consultório médico é que a coisa é mais grave. Antes eu escolhia meus médicos pela competência técnica, pelo currículo, queria saber onde tinha feito residência, qual serviço havia frequentado na especialização. Agora não. Agora procuro aqueles que atendem com hora marcada, embora sejam muito raros; e quando não encontro, seleciono o profissional pelo conforto das poltronas da sala de espera ou pela presença de rede wi-fi para me distrair navegando na internet durante as três ou quatro horas que sei que vou passar ali.

E imagine como seria interessante a vida se os ônibus urbanos tivessem hora certa para passar nos pontos. Fico imaginando como deve ser viver num país onde se cumpre horários, na Inglaterra, por exemplo, onde há um trens que passam às 13h52, nem mais nem menos.

O que fazer? Para mim, só tem uma solução: romper com o padrão de atraso. Sempre fui considerada chata e “casquinha” pelos alunos porque começava as aulas na hora. Mas isso era somente no início, porque depois eles se acostumavam e passavam a chegar no horário. Cumprindo os compromissos na hora, cada um de nós estará dando o exemplo e rompendo com o padrão de atraso e perda de tempo que aflige todo mundo, gerando estresse, desperdício de horas preciosas e gasto de dinheiro.

E você, meu caro leitor? O que acha disso tudo? Você acha que devemos assumir mesmo o jeito atrasado de ser ou que devemos romper com o padrão? Fica a pergunta.

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