Estranho, bizarro, engraçado…
Clotilde Tavares | 20 de setembro de 2009Domingo preguiçoso esse em que eu, absolutamente incapaz de encadear uma idéia na outra, deixo aqui pra você esse álbum de figurinhas.
Domingo preguiçoso esse em que eu, absolutamente incapaz de encadear uma idéia na outra, deixo aqui pra você esse álbum de figurinhas.
O ser humano, principalmente o ser humano dito civilizado, tem uma tendência quase doentia a complicar o que é simples. Falamos demais, somos prolixos, gostamos de demonstrar um conhecimento que não temos, adoramos falar difícil… Se o meu caro leitor duvida do que estou dizendo, preste atenção quando as pessoas são entrevistadas na televisão. Desde o ministro de estado ao cidadão comum todos eles complicam o que dizem e são incapazes de dar uma resposta simples e clara para qualquer pergunta. Os ministros e políticos muitas vezes fazem isso de propósito, para complicar mesmo, ou para não dizer dando a impressão de que estão dizendo. O homem comum faz para causar boa impressão, para “se mostrar”, para fazer bonito.
Na vida doméstica também é a mesma coisa. Se você é adolescente, experimente chegar em casa e dizer para sua mãe: “Tem almoço?” Provavelmente ela vai fazer uma longa digressão filosófica sobre a condição feminina, vai falar sobre o tempo que os alimentos levam para ficar prontos, vai comentar o preço absurdo da comida no supermercado, e refletir em voz chorosa sobre como ela se dedica a cuidar da casa e dos filhos quando poderia estar cumprindo “a sua lenda pessoal”. Nunca, nunca, jamais a resposta será um simples “Tem almoço, sim” ou “Não, não tem.”
Recebi um dia desses um email que trazia um teste engraçadíssimo, constando de perguntas e respostas que tem tudo a ver com isso que estou dizendo. Aliás, não faz muito tempo aqui escrevi um post sobre isso, onde citei o meu batidíssimo exemplo do filho perguntando à mãe se tem almoço. Mas vamos ao teste.
Começa assim: “Como você colocaria uma girafa dentro de uma geladeira?” A resposta certa é: “Abra a geladeira, coloque a girafa dentro e feche a porta.” O teste diz então que essa pergunta testa aquela sua tendência de achar soluções complicadas para coisas simples.
O teste continua com a pergunta seguinte: “Como você colocaria um elefante dentro da geladeira?” Ora, se você responde: “Abra a geladeira, coloque o elefante dentro e feche a porta”, a resposta está errada. A correta seria: “Abra a porta da geladeira, retire a girafa, coloque o elefante e feche a porta.” Aí o teste informa que essa pergunta testa a sua capacidade de pensar nas consequências de ações anteriores.
Mas vamos pra frente. A pergunta a seguir é: “O leão, rei dos animais, está organizando numa conferência animal na floresta. Todos os animais compareceram, exceto um. Qual foi o animal que nao compareceu?” Ora, meu caro leitor! Quem não compareceu foi o elefante, que estava trancado na geladeira, onde você mesmo o colocou. Essa pergunta testou a sua memória.
Finalmente, a última pergunta: “Como você faria para atravessar um rio infestado de jacarés?” e a resposta é clara e simples: você poderia atravessar o rio nadando tranquilamente já que todos os jacarés estão na conferência de animais… O teste informa, finalmente, que essa pergunta testa a sua capacidade de aprender com seus próprios erros.
Mas não leve isso muito a sério. Esses testes não têm valor científico e não testam rigorosamente nada a não ser a sua paciência, e servem apenas que você, visitando este blog, possa variar um pouco das notícias que enchem a mídia, sobre falcatruas, roubos, sequestros, atos secretos e outras patifarias. De quebra eu também arranjei tema para escrever hoje, nesta manhã de sábado, que me pegou assim meio sem assunto e sem inspiração.
Navegando na Internet, encontrei umas fotos da atriz Brigitte Bardot, atualmente com setenta e cinco anos. E não falta quem compare a imagem atual da atriz com aquela deslumbrante e esplendorosa juventude que encantou a todos na década de 1960, transformando-a num dos mais poderosos símbolos sexuais do século XX. Na foto atual a atriz, que nunca quis se submeter a plásticas, mostra a face sulcada de rugas, e os comentários dos blogs sempre são “o estrago que o tempo faz nas pessoas” ou “como o tempo destrói a beleza”.
Ah, meu caro leitor, permita-me discordar. As pessoas não são somente pele, músculos e articulações – estruturas mais afetadas pelo tempo do que outras. As pessoas são muito mais do que uma pele perfeita e uma musculatura sarada. Ao contrário de quem tem medo de envelhecer e vive correndo atrás dos milagres da plástica e tratamento, penso que o tempo age em nós de forma mais positiva do que negativa, melhorando, aprimorando, acrescentando sabedoria através da experiência.
Se não fosse a passagem do tempo, como ficaria a Esperança? Como ficaria a Utopia, que nos arrasta e conduz a novas conquistas, se ela não fosse localizada no Futuro, no tempo distante à nossa frente? Isso sem falar no efeito lenitivo e suavizante do tempo sobre as nossas dores, nossos males, nossas angústias. É o tempo que nos faz esquecer, perdoar, esvaziar o nosso coração das coisas que não deram certo para poder tentar de novo, sonhar de novo, amar outra vez.
À medida que nos premia com uma ruga aqui outra ali, com centímetros a mais na cintura ou com articulações mais duras, o tempo também nos dá tranquilidade para aceitar os imprevistos e sabedoria para compreender os enganos, nossos e dos nossos semelhantes, e ter paciência com eles.
É o tempo que apura a nossa percepção, afia nossa inteligencia e nos dá acuidade para compreender melhor os fatos e as coisas que nos cercam. Com a passagem do tempo, ficamos mais seletivos e entendemos o que o poeta quer dizer quando diz que “só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder”.
Se o tempo nos embranquece os cabelos, também acalma os ardores juvenis que nos levam a fazer tanta bobagem sem querer, a dizer coisas das quais nos arrependemos depois. É o tempo quem doura as nossas recordações, que nos acalma, nos reconforta.
Finalmente, os versos de Caetano Veloso dizem mais do que eu posso dizer agora:
“E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Não serei nem terás sido.
Ainda assim acredito
Ser possível reunir-nos
Num outro nível de vínculo.”
O título deste post também foi tomado de empréstimo a Caetano Veloso.
Estou com um cantinho bem definido de trabalho no minha nova morada. É um quadrado de 2,50m x 2,50m, logo na entrada do apartamento, que seria um pequeno hall se eu não precisasse de uma mesa mais ou menos grande para escrever e espalhar meus papéis, de um lugar para colocar a impressora e de uma pequena estante para guardar papel, meus arquivos, pastas e cadernos.
Tenho tudo isso já, mas muito velho, muito usado, e queria umas coisinhas novas. Aí, começa o meu problema, porque não gosto de nada comum, nada que “todo mundo tem”. E ando procurando uma mesa de trabalho que tenha uma das faces arredondadas, porque acho desagradável entrar em casa e topar logo de cara com um móvel em ãngulo reto bem na minha frente.
Dei uma primeira olhada pelas lojas, não vi nada que me agradasse; aí resolvi entrar na Internet para ver o que havia e, novamente, não encontrei o que queria mas encontrei umas escrivaninhas interessantes, umas bonitas, outras curiosas, que divido com você.
Começo com um clássico: a escrivaninha onde Goethe escreveu o “Fausto” e “Werther”. Aqui.
Esta é antiga: uma das gavetas tem um compartimento”secreto” que só pode ser aberta por quem conhece o segredo, segundo o anúncio. Está à venda, e o anúncio ainda diz que é em estilo “xerife”. Aqui.
No site do escritor Sérgio Barcellos Ximenes encontro essa ilustração com o título “A mesa do escritor” e uma reflexão: “… O campo de batalha, onde livros, esperanças e carreiras nascem e morrem.”
E a escrivaninha da menina, toda sapeca, com seus primeiros papéis de carta cor-de-rosa e bloquinhos Hello Kitty? Gracinha! Aqui.
E se você é daqueles que precisa se isolar de tudo para trabalhar, que tal essa estação de trabalho que se fecha sobre você como uma concha e não deixa a perturbação do mundo lhe atingir? Aqui.
Apaixonado por carros? Experimente essa.
Finalmente, essa escrivaninha que é o triunfo do design e do aproveitamento de espaço. Encontrei aqui.
Vou deixar de ver noticiário de manhã. As coisas que vejo na tela me dão vontade de voltar para a cama e dormir de novo, ou então tiram o meu entusiasmo para sair à rua, para meus compromissos de almoço e encontrar amigos. Hoje, por exemplo, a primeira notícia foi a de uma adolescente batendo em colega de escola, incentivada pela mãe, que dizia: “Bate! Chuta! Mete o pé como eu te ensinei! Teu pai está no carro!”
Depois deste horror, a TV mostrou pessoas atingidas por pedras enormes que os bandidos atiram sobre os carros na linha vermelha (no Rio de Janeiro) na tentativa de assaltar quem passa na avenida.
O telejornal informa a nova de Sarney. Diz ele que “a imprensa está atrapalhando o Senado”. Então ele propõe o que? Que a imprensa se cale e deixe o Senado trabalhar em paz, com seus atos secretos e outras patifarias?
Outra matéria extensa foi a do lixo que ameaça soterrar a cidade de São Paulo, lixo que cidade não tem condição de recolher por inteiro e que a população está sempre produzindo.
Mais adiante, uma matéria sobre a tentativa do governo de “controlar” a Internet em relação à propaganda eleitoral, fazendo com que meu estômago se contraia todo à lembrança da ditadura militar. Felizmente, o jornalista Alexandre Garcia fez um comentário que salvou o dia. Disse ele: “Daqui a pouco o governo resolve mudar a Lei da Oferta e da Procura, a Lei da Gravidade…”
Depois, tenho o prazer de saber que no governo de Tocantins há vinte e cinco mil funcionários públicos em cargo de confiança, e que a maioria passa do dia sem fazer nada, tomando cerveja e banho de sol!
Então, está resolvido. Telejornal de manhã, nunca mais.
Hoje é dia de celebrar a Vida. Aliás, todos os dias são para celebrar a Vida mas muitas vezes a gente se esquece disso, e passa pelas horas na maior correria, na pressa, sem refletir e sem desfrutar sobre essa coisa maravilhosa que é estar vivo: respirar, ler, blogar, ir ali na geladeira e tomar um copo de água, levantar do computador e passar um tempinho ali na varanda vendo o céu, o perfil sensual das dunas e os carros em disparada pela avenida.
Tudo isso é para dizer que a primeira notícia deste dia de hoje foi a morte do ator Patrick Swayze, que me veio assim que abri o Twitter. Ao falar em Morte sempre me lembro da Vida porque para mim ambas fazem parte de um par indissolúvel, estão tão entrelaçadas que é difícil falar de uma sem falar da outra.
Patrick Swayze é um ator de quem eu gosto muito, e sempre paro o que estou fazendo para ver de novo, novamente e outra vez Dirty Dancing ou Para Wong Foo, Obrigada por Tudo!, filme em que ele faz o papel de uma drag-queen.
Os puristas do cinema dizem que ele era canastrão, mas isso pouco me importa. Eu sempre gostei de Jack Palance e de Victor Mature, por que não gostaria do belo Patrick Swayze? Seu maior sucesso, Ghost, é moralista e piegas demais para o meu gosto, e só me interessa pelo desempenho de Whoopy Goldberg. Mas há uma filme dele, Steel Dawn (Lance Hool, 1987) onde ele faz o papel de um espadachim do futuro num mundo pós apocalíptico, um filme de ficção científica que eu gosto muito.
Bem, mas o belo e sarado Patrick travou mesmo sua maior batalha contra o câncer de pâncreas que o destruiu em poucos anos, levando-o aos 57 anos de idade. Morreu em sua casa, sem a tortura dos tubos e das ressuscitações nas UTIs tecnológicas, que só fazem prolongar a agonia.
Para ele, aqui, esta declaração de amor de uma fã, e o consolo de que, nas imagens gravadas que ficaram de seus filmes, ele terá alcançado a imortalidade.
Saio pouco de casa. O mundo ultimamente se tornou um lugar barulhento, quente e sem vagas para estacionamento. Eu também fiquei mais velha, mais exigente, mais seletiva, mais comodista. Além disso, em casa tenho o mundo inteiro à minha disposição através da TV a cabo e da Internet, sem falar nos famosos 1.800 livros mencionados aqui tantas vezes. Quando saio, é para jantar ou almoçar com amigos, ir ao shopping ou livraria, dar uma volta de carro, visitar filhos ou amigos. Como não bebo nem gosto de balada ou noitadas, não vou a barzinhos; e qualquer reunião com mais de quatro pessoas para mim é evento, e não frequento eventos. Mas gosto muito de receber visitas, além de visitar muito também.
Enfim, estou caminhando para ser uma anacoreta urbana, empoleirada neste quarto andar, distante “do mundo e das suas pompas”, cumprindo o destino astrológico que colocou Vênus e a Lua em conjunção na minha décima segunda casa, só não me tornando uma freira por causa dos pecados cometidos na juventude e que, mesmo indo contra o bom-senso, estou doidinha para cometê-los de novo.
Reproduzo de memória um texto de Oscar Wilde em “O Retrato de Dorian Gray” – o livro está ali na estante mas estou com preguiça de me levantar para pegá-lo – sobre essa coisa dos pecados da juventude.
Num jantar, uma mulher já velhusca pergunta ao personagem:
– Como poderia sentir-me jovem outra vez?
– Oh, Lady X., lembra-se de alguma grande loucura que tenha cometido na juventude?
– É claro.
– Então cometa-a novamente…
Outra coisa que me assusta no mundo exterior é a presença dos ceresumanos, criaturas que parecem comigo mas que definitivamente não pertencem à minha espécie sendo, como já disse, meus “dessemelhantes”. Ontem, no supermercado mais alinhado da cidade, encontrei cinco espécimes. Três rapazes, duas moças, todos na casa dos vinte anos. Lindos, altos, bem proprocionados, bem vestidos, roupas caras, as garotas muito manicuradas e penteadas, roupas de griffe, bolsas caríssimas, tudo de muito bom gosto; não eram certamente garotas de programa como alguns podem estar pensando.
Em bloco, essas cinco criaturas se deslocavam pelos corredores da loja, falando em tom altíssimo, zoando uns com os outros aos gritos, usando palavrões, desarrumando as prateleiras, arrotando alto e emitindo outros sons escatológicos, e imitando animais. Os rapazes latiam, miavam, esturravam; e as moças cacarejavam e grasnavam, numa barulheira infernal, inadmissível naquele local e tolerável apenas se fossem crianças muito pequenas, e olhe lá.
Os ceresumanos também são identificáveis no cinema, e Sandro Fortunato, do blog Algo a Dizer, registrou um dia desses a presença deles. Eu deixei de ir ao cinema também porque me assusta a convivência com esses meus dessemelhantes, cada vez em maior número e mais barulhentos, fazendo-me lembrar do clássico cinematográfico “Invasores de Corpos”, onde seres alienígenas se apossam do corpo das pessoas.
Tenho paciência com muita coisa neste mundo. Mas com os ceresumanos, fruto da falta de educação, representantes da grosseria e da cafajestice, meu grau de tolerancia é zero.
Hoje, com preguiça de ter ideias, abri meu arquivo de frases. É um arquivo que tenho no computador e que me socorre sempre nessas horas em que estou com preguiça de escrever. São frases instigantes, curiosas, inteligentes, que vou juntando até que um dia elas possam servir para alguma coisa.
E para este domingo de preguiça, nada como uma boa sacudidela na felicidade, desafinando o coro dos contentes e atacando de pessimismo com o filósofo Émile Cioran (1911-1995). Cioran nasceu na Romênia, foi para a França com 26 anos e lá permaneceu até à morte, na convicção de que a condição de apátrida seria a melhor possível para um intelectual. Deixou vários escritos filosóficos sobre alienação, absurdo, decadência, tirania e temas semelhantes. Então, para você, neste domingo, alguns dos meus trechos preferidos de Cioran.
“Não existe diferença alguma entre os sonhos de um açougueiro e os de um poeta”.
“É o louco que existe em nós quem nos obriga à aventura. Se nos abandona, estamos perdidos: tudo depende dele, inclusive nossa vida vegetativa; é ele quem nos convida a respirar, quem nos obriga a tal, e é também ele quem empurra o sangue por nossas veias. Se ele se retirassse, ficaríamos sós!bNão se pode ser normal e vivo ao mesmo tempo.”
“Longe de mim o desejo de pervereter tuas esperanças: a vida se encarregará disso.”
“Se eu acreditasse em Deus, minha indiferença não conheceria limites: passearia completamente nu pelas avenidas.”
“Todo solitário é suspeito; um puro não se isola. Para desejar a intimidade de uma cela é preciso ter a consciência pesada, é necessário ter medo dessa consciência.”
“A função dos olhos não é ver, e sim, chorar. E para ver, realmente, é preciso fechá-los: é a condição do êxtase, da única visão reveladora, no momento em que a percepção se esgota no horror do já visto, do irreparravelmente sabido desde sempre.”
“Querer significa manter-se a qualquer preço em estado de exasperação e febre.”
“Tenta ser livre, morrerás de fome. A sociedade só tolera os servis e os déspotas. É uma prisão sem guardas, mas da qual não escapa ninguém sem perecer.”
“O pensamento é uma mentira, como o amor ou a fé. Pois as verdades são fraudes e as paixões odores; e, no fim das contas, a escolha está entre aquele que mente e aquele que fede.”
Finalmente a que mais gosto, e que se aplica muito bem ao dia de hoje:
“A única função do amor é a de ajudar-nos a suportar essas tardes dominicais, cruéis e incomensuráveis, que nos ferem para o resto da semana e para toda a eternidade.”
Acabo de assistir a um documentário muito bom. “Pretérito perfeito” (Brasil, 2008 – 71 minutos – Original Video), com direção e roteiro de Gustavo Pizzi, fala sobre a Casa Rosa, prostíbulo de luxo que teve sua época áurea no década de 1940 e que funcionava no bairro das Laranjeiras, na rua Alice 550, no Rio de Janeiro.
Como não conhecia nada dessa história fui à Internet, onde encontrei no site da Casa Rosa toda a história do edifício. O cabaré foi “…ponto vital na historia do Bairro das Laranjeiras e nas estórias de muitos que tiveram sua iniciação nos famosos quartos da Casa Rosa.” No documentário, vemos o cantor Lobão contando como foi isso, e mostrando o quarto onde ele pela primeira vez conheceu – do ponto de vista bíblico – uma mulher.
A Casa Rosa é um belo exemplo de arquitetura do início do século XX, tendo sido construído “… com o objetivo de agradar aos prazeres da alta sociedade, mantendo assim um padrão de qualidade em sua arquitetura e detalhes como azulejos portugueses e pinturas em azulejo ainda em exposição na casa.” A clientela era gente rica: comerciantes, políticos, magistrados e coronéis que por ali passavam.
Depois do seu declínio como bordel, no início dos anos 80, passou um tempo fechado e no fim dos anos 90 começaram a se realizar eventos de Forró e samba, como o Xote Coladinho e o Pessoas do Século Passado. Isso redundou na fundação de um Centro Cultural, que oficializou suas atividades em 2004.
Voltando ao documentário, ele é uma maravilha. Mostra depoimentos de antigos frequentadores e de funcionários; e pontuando toda a narração temos os depoimentos sábios e divertidos de Ivanilda Santos de Lima, que ali trabalhou como prostituta. É dificil imaginar que a respeitável senhora de meia-idade, bem acima do peso, de óculos de grau e vestida com simplicidade, seja a personagem das histórias que ela conta, de maneira divertida, ao entrevistador.
Além de tudo, o “Pretérito perfeito” (e viva o diretor, Gustavo Pizzi!) é técnicamente muito bem feito, fotografia linda, recursos narrativos excelentes e uma sensibilidade muito grande na abordagem de um tema como esse.
Recomendo.
No dia 11 de setembro de 2001 eu estava em Natal na sala de espera do consultório da Dra. Joaquina Fernandes Vieira, minha colega e amiga Quinquina, otorrinolaringologista que sempre dava um jeito nas minhas frequentes crises de sinusite. A um canto, lia um livro sem prestar atenção na TV quando vi que o noticiário havia mudado de tom e transmitia um incêndio em um edifício. Como o som da TV estava baixo, perguntei a alguém o que era aquilo. A pessoa respondeu “Parece que é um incêndio em São Paulo!” “Em São Paulo o que!” eu disse, me aproximando da tela. “Isso é Nova Iorque, e é o World Trade Center!” Nem bem eu havia dito isso, quando o segundo avião se chocou com a Torre Sul bem na minha frente e eu entendi imediatamente que aquilo devia ser um atentado. Aí, chegou a minha hora de entrar para a consulta.
Ao terminar, saí da sala da médica a tempo de ver o terceiro avião se chocar com o Pentágono. Ia fazer algumas coisas depois do consultório, mas resolvi ir para casa, e dirigi até lá sob o terror de que os Estados Unidos decidissem uma ação de retaliação que lançasse o mundo num holocausto incontornável.
Liguei para os meus irmãos, e a pergunta era: “Se houver algo assim, o que é que a gente faz?” E Pedro, que mora em Campina, e que não estava tão apavorado quanto eu, mostrou a solução: “Se a coisa pegar fogo, a gente evacua a família inteira para Coxixola.”
Mas por que Coxixola, perguntará o meu caro leitor? O que é Coxixola? Onde é Coxixola? Explico. Coxixola é uma pequena cidade, uma cidade mínima, que fica no Cariri paraibano, fazendo limites com Serra Branca, Congo, Caraúbas e São João do Cariri. É o menor município da Paraíba. É também a cidade natal da minha mãe e, talvez por ela sempre falar da sua cidade-berço com tanto carinho e saudade, sempre nos deu a idéia de um lugar escondido, inacessível, distante, protegido das desgraças do mundo, e ao mesmo tempo mágico, cheio de bucolismo, de lendas e de histórias, como se fosse São Saruê, a Terra do Nunca, o País das Maravilhas e a floresta de Brocéliande, tudo junto, reunido num lugar só.
Na década de 1960, aos quinze anos de idade, fui conhecer Coxixola e me encantei com o minúsculo lugarejo que, naquele tempo, era apenas uma rua, duas fileiras de casas, onde as pessoas mais velhas ainda se lembravam do meu avô Pedro Quirino. Sem muita coisa para fazer, naqueles ermos, divertia-me com as primas a explorar os arredores, e conversar com as pessoas. Foram dias que jamais esquecerei, andando sozinha pelos matos, vadeando riachos, subindo e descendo serrotes e ouvindo o grito das maracanãs quando passavam de tarde em revoada sobre as vazantes.
Quando queria aborrecer Mamãe, Papai fazia a maior gozação da cidadezinha, dizendo que Coxixola não aparecia no mapa. Mamãe ia buscar o Atlas e, com orgulho, mostrava o minúsculo pontinho perdido no meio do Cariri. Então, o que não diriam eles hoje se vissem a pequenina Coxixola na rede mundial dos computadores? Pois é, meu caro leitor. Coxixola agora tem status de município digital. Orgulhosa e faceira, mostra através de fotos e informações as suas prendas e riquezas.
Penso nos olhos da minha mãe, como brilhavam quando ela se lembrava do seu berço natal. A família foi expulsa do Cariri pela seca de 1927, quando foram todos para Angelim, Pernambuco, e onde ficaram até a vida adulta. Mesmo assim, quando chovia, meu avô voltava ao Cariri, para ver “tanta boniteza, pois a natureza é um paraíso aberto”, como nos versos imortais do poeta.
Herdei esse amor todo por aquela terra e Coxixola, apesar de continuar sendo um pequeno pontinho no Atlas, para mim sempre será um porto seguro inacessível a qualquer catástrofe, uma estrela plantada no meio do Cariri, no mapa do meu coração.